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Genocídio

A janela exerce uma atração quase irresistível sobre mim. Penso no vento acariciando o corpo solto, queda livre e libertária, com membros já sem o comando da mente, movendo-se de forma desengonçada até terminar numa queda de baque seco, em que meu sangue se mistura com o da cidade, fazendo com que finalmente eu me torne parte da desgraçada. Inexoravelmente.

O forno e sua boca cheia de dentes, que soltam com intensidade controlada o gás mortal, me chama. E penso com certo deleite no horror dos rostos encontrando a cena patética do corpo morto, em posição ridícula, com a cabeça enfiada no forno como uma galinha de domingo.

Travamos, as giletes no armário do banheiro e eu, um diálogo telepático, em que tentam me convencer do conforto da água morna da banheira, do alívio da pressão provocado pelo sangue saindo de meus pulsos e da beleza plástica da cena: um corpo nu e alvo, numa pequena tina que o contorna, valorizando sua alvura com o vermelho das águas. A essa altura, já frias. A plasticidade da cena quase me demove da decisão.

O mar não me fala nada. A imagem das ondas se jogando violentamente contra a areia e depois arrastando para dentro do oceano tudo o que está no seu caminho, é por si só um convite.

O par de faróis a noite, vindo em minha direção, tem um poder magnético, quase um ímã. Não penso em dor, impacto. Penso em um silêncio profundo e apaziguador.

As pílulas piscam para mim, fazendo promessas de uma despedida em estado tranqüilo de torpor e leves alucinações. Drogas lícitas. Hipnóticos. Durma conosco, elas convidam. Será a melhor foda da sua vida. A mais relaxante, a mais intensa, a que provocará o sono mais profundo e reparador depois do coito lícitopsicotrópico.

Recuso todos os convites. Fico e incomodo com o brilho dos meus olhos, minha gargalhada tonitruante, meu toque quente e minha onipresença úbere de sarcasmo e simpatia.

Suicido os outros com a suavidade de minha presença.


Mais Priscila Andrade: http://dedodemoca.blogspot.com
Priscila Andrade
Enviado por Priscila Andrade em 23/03/2006
Reeditado em 30/03/2006
Código do texto: T127412

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Sobre a autora
Priscila Andrade
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 44 anos
15 textos (349 leituras)
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Priscila Andrade