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Senhor Desejo, Senhora Solidão

Senhor Desejo, Senhora Solidão

Alguém com o coração semelhante ao meu ouvirá um dia o que tenho a contar? Ouvirá a minha história? Não quero compaixão. Quero emoção de quem me escutar, pois a piedade se destina aos fracos e eu ainda sou forte na minha tristeza. Desde a infância, um perfil de homem me acompanha, será anjo? Ou será demônio? Será minha alma gêmea?

Silencioso e sorridente ele sempre é presença em meus sonhos, e no passar da vida, notei que vem se intensificando os momentos da não presença. Quando fecho os olhos e o sono me possui, sinto o toque de sua mão nos meus cabelos, ouço-lhe a voz grave, morna e compassada a sussurrar nos meus ouvidos: “dorme minha eterna menina, descansa este coração de leoa, não temas... Sou teu companheiro, pareço ser fluídico, mas sou presente, não penses que a tessitura de teus sonhos foi quem me metabolizou, sou real... e amo-te. Se quando o dia chega com seu burburinho sufocante e eu desapareço é para que quando caírem às estrelas eu aparecer, e tu, minha menina adormecida, sintas o meu toque nos teus lábios displicentemente abandonados”.

Quantas infinitas vezes penso que serei louca, contendo-me em ficar sozinha com meu Eu, acovardando-me em partilhar este segredo com outro vivente... Temerosa de que tudo seja fantasma da solidão, um fantasma companheiro para meu espírito? Pois eu terei perdido a minha sanidade e mergulhado nas profundezas do mar azul, num mundo de neblinas e vultos?...Meu Deus, esta descoberta tem me levado para estados de tristezas, somente neutralizada quando me misturo à exuberância da natureza. Todos os entardeceres a mim parecem sepulcrais, de belo nada têm e recordam-me perdas, muitas perdas de amor. Essa tristeza a quem responsabilizo pela destinação? Pode alguém me responder? Tu que mais próximo estás de mim...Suplico,que sejas meu confidente e quem sabes até meu cúmplice?

O que posso te revelar é que desde a mais tenra idade a presença desse fantasmagórico companheiro em meus sonhos é constante...E me segue invisível no cotidiano.

Perdoa-me tu que me lês e sabes me escutar com o coração – se te assusto. Saberei ser grata a ti por permitir que eu deposite minhas tristezas, melancolias e sentimentos de incertezas. Sou pensadora que está em constante indagação sobre meu íntimo – percebes que sou mais emoção do que razão? Coloco em um “cantinho de esquecimento” o que para mim não tem valor sentimental – desprovido de essência poética. Serei uma mulher lírica?

As estações passam como momentos sempre tão diferentes e únicos. É nesses instantes que sonho em encantar-me com o néctar das flores ou dos orvalhos, assim estaria sempre forte para suportar este desejo tão solitário e que tanto me atormenta.

Fala-me, querido amigo, o que achas de tudo que te revelei?...Ou a minha vida será uma casa em cujo interior nenhum olhar se atreveu a invadir?

De tempos em tempos procuro espantar os fantasmas numa tensão axial própria do ser humano, meus sonhos serão utopias? Na verdade pouco importa para mim essa resposta. Gosto de ser (um ser) utópico –projetar sonhos e nunca desistir de ser uma sonhadora. Sonhar dá cores à Vida...

...


Senhor Desejo, Senhora Solidão...(II)

Eis que te encontro na vida real, e chegastes tão sutilmente. Foi lindo. Tento fotografar nas linhas teu perfume. Tanto amor dentro de mim deixa-me aflita e arranha como se garras tivesse; escrevo-te em forma de fac-símile enquanto fôlego eu tenho, pois me acostumei a falar por escrito, eu que quase não sei falar e quem a audiência do mundo me vê com explícita erótica.

Impotente não consigo mostrar a Canção de Abismo (...) que hiberna dentro do coração selvagem. Corro o risco de antes do dia da morte chegar não conseguir experimentar o delicado da Vida.

Compreendo que neste mundo nada me faz te esquecer, por mais inacessível – que sejas.   És febre que invadiu meu corpo e virou paixão e se transformou numa armadura da alma. Entretanto, Senhor Desejo, sou a mesma Senhora Solidão.
Talvez o grande erro seja eu não aceitar que te ame menos e que entenda melhor sobre o cotidiano dos homens. Tão limitada a minha liberdade! Como te dar um pouco de mim? Faço poemas para ti – essa foi à maneira de meu coração de mulher adentrar nos teus pensamentos ou quem sabe ter o prêmio de ser uma pessoa inesquecível em tua vida?
Gostaria tanto de desvendar se teu desejo tem limites ou se quando me tiveres o corpo - ficarás satisfeito ou passarás a querer-me mais e mais...
Somos dois seres que têm desejos fantásticos e fantasias quase inconcebíveis pela sociedade hipócrita – e, de certo modo entreguei-me a Ti, Senhor Desejo, tão depressa do que a qualquer outro homem que tenha passado no meu cotidiano. Capricho do destino...

Lembras? Viajastes dentro de mim, enxugastes a lágrima invisível do desengano, arrepiastes os pelos da pele de Loba – até senti uma dorzinha - porque a felicidade dói. Hoje, quando a saudade chega é quase insuportável o peso da inspiração de te escrever poética.

Voltei à rotina, mas teus gestos de carinhos e tua voz terna chamando-me de menina ou de princesa ficaram gravados como uma tatuagem eterna na minha imaginação – onde adormece a poética e a erótica. Elas são irmãs gêmeas siamesas, e, uma não existe sem a outra. Constatei que fostes tu, Senhor Desejo, o único homem a quem me mostrei nua em emoção – descobristes segredos meus que nem Eu mesma sabia. Segredos tão bem guardados. Pensei e falei livremente sem que me interrompesses - ou tirasses conclusões egoístas sobre quem sou realmente.
Muitos homens tentaram usufruir a solidão – minha, tônica da vida real. São caçadores de mim, amantes egoístas e vaidosos. Seu hobbie se resume em colecionar em lindas galerias –suas conquistas femininas. Lindos troféus. Porém, esses eu consigo deletar da minha vida sem qualquer dificuldade, são como chuvas de verão.
Nem todos têm a sabedoria e a vontade de dar algo sem esperar ansiosamente por algo em troca.

E se me escutas neste instante e sentes meu perfume, permita-me entrar através da janela de tua alma e enroscar-me e sentar em teu colo, sussurrar ao teu ouvido, beijar suavemente tua boca... E assim embalar-me em teu carinho até saciar essa solidão Fera.
                   
                   Fátima Pessoa

(...)” Canção de Abismo”  Título do Livro do paraibano Escritor e Jornalista Ricardo Anísio.



Poética
Enviado por Poética em 26/03/2006
Código do texto: T128680
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Sobre a autora
Poética
João Pessoa - Paraíba - Brasil
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