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Falam as Estrelas

À Sónia
Falam as Estrelas

Há uma eternidade que não sabemos o tempo e podemos adivinhar a idade.
Porque se elas brilham agora brilham mortas, sendo a nossa visão a sua herança
E porque falam elas?
Talvez porque tal como os humanos sentiam ou sentem uma enorme necessidade
de se perpetuarem no tempo, sendo que a nossa visão é essa a eternidade, porque um dia
quem as viu vai dizer a outro e apontar o local no céu onde elas estão, e por ai fora.
O mais estranho é que um dia viemos delas e esse gesto inocente é um gesto que se assemelha ao visionamento duma velha fotografia, uma espécie de vislumbre do passado onde o homem, um ser talhado para o futuro está sempre olhar, tal como grandes homens que deixaram grandes obras mas que estão sempre a olhar para onde vieram, tanto por insegurança, como por nobreza de carácter que reconhece em quem o gerou parte do mérito do seu Brilho.
Ou então olhamos o céu como um desafio e não necessariamente como um eco do passado... tal como uma criança que olha um jacto no céu, não por fascínio mas sim por ambição, por saber que um dia poderá ir mais longe...
Gostaria de dizer que essa criança se transformou em astronauta...Mas não...Em pouco menos de 50 anos de presença do homem no espaço, pouco mais de 1000 foram os astronautas, sendo por isso que o mais certo é esse puto acabar num escritório e esquecer-se do antigo desafio, esquecer-se que nós somos pó dessas estrelas e por isso, o mínimo que se devia exigir ao homem era a ambição de as tocarmos e não de ficarmos confinados aos labirintos íntimos com que nos deixamos enredar. Porque se fossemos mais ambiciosos seriam dezenas de milhares no espaço e não os poucos que por lá andaram; andar no espaço seria uma realidade e a criança seria feliz entre as estrelas, seria mais humano por entregar ao espaço o fruto mais belo da semente que um dia o espaço deixou na Terra.
As estrelas falam porque sabem que há pessoas como tu e como eu que as entendemos e que por isso as amamos. Eu porque me estou sempre a imaginar entre elas, tu porque quando olhas o céu olhas o teu Deus. E haverá maior homenagem a elas do que as olharmos quando buscamos o máximo superior que nos transcende, o indefinível?
Desde criança que soube nunca ir ao espaço por problemas de visão, mas isso nunca diminuiu a minha sede imensa, isso só me tornou mais ambicioso: já que não posso estar entre as estrelas vou recria-las aqui, vou imaginar possíveis mundos que elas iluminem, vou amar mais intensamente sob a luz das estrelas vou querer que um filho meu as admire como eu, vou falar com as estrelas.
E eu todas as noites falo com elas, pois cada vez que morre alguém que eu amo imagino que essa pessoa foi para o céu, não o paraíso, mas o céu, tornando-se mais uma estrela, sendo por isso que também falo com elas, porque os meus mortos estão vivos, estão lá em cima a iluminar outros mundos com seres como eu que também as amam.
E quando falo com elas, com os meus mortos e com as outras eu sinto que elas falam comigo, sinto um falar na minha mente, sinto um eco que talvez seja de um Deus que deixei algures na minha descrença.
Não sei como vai ser a minha vida daqui para a frente, sei apenas que falo e sempre falarei com elas, as minhas amadas as minhas mais do que tudo, as minhas estrelas, porque assim como eu falo com elas, elas falam comigo, numa linguagem que mais ninguém entende a não sermos nos os dois, perdão, nos os milhões, sendo por isso que
Falam as estrelas

Poema protegido pelos Direitos do Autor
Miguel Patrício Gomes
Enviado por Miguel Patrício Gomes em 20/04/2006
Código do texto: T142072

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Sobre o autor
Miguel Patrício Gomes
Portugal
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Miguel Patrício Gomes