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Carta ao soldado desconhecido

Por que Deus rezas?
Já reparaste que na minha humilde óptica de agnóstico o Deus é o mesmo,
só que com diferentes nomes e diferentes textos sagrados?
Por isso, quando rezas para ele te dar vida e trazer a morte ao teu inimigo
já pensaste que esse Deus pode estar a receber as mesmas orações do teu inimigo?
Sendo assim qual dos dois irá vencer, irá ter as graças desse Deus, que em paz
vocês oram em paz e lhe pedem prosperidade jurando a quem vos quer
ouvir que esse Deus é um Deus de paz?
Porque rezam então na guerra para Ele trazer a morte ao inimigo?
Mais valia abraçares uma religião dos tempos clássicos, onde havia
um Deus para diversas funções até as da guerra…
Era muito mais honesto orar a Marte e não ao mesmo Deus
que a ti e aos teus te deu paz e prosperidade…
E afinal porque matas?
Acreditas que é pela tua própria felicidade e não pela vã
Glória dos teus Donos, para que possam encher as páginas
da história global com mais vitórias ou derrotas que serão
estudadas mais tarde nos colégios e academias militares do futuro
ou definirão a existência de mais alguns quilómetros da tua terra
ou petróleo mais barato que nada será quando os poços secarem?
O teu sangue é o bem mais precioso da história da humanidade,
e no entanto os teus Donos são capazes de o trocar por uma
nesga de terreno ou por riquezas que a História vai secar?
Porque é que odeias por decreto, ou por proclamação?
Os teus antepassados amaram ou apenas desconheciam
o povo que agora matas porque os teus Donos embriagados
pelo poder acham ser mau na sua perigosa dicotomia sensitiva e bélica, povo que foi o aliado na última guerra?
Porque não pegas nessa mesma arma, reúnes outros como tu e vão caçar os
verdadeiros criminosos os Teus Donos, que apelidarão esse gesto de revolta,
quererão nomear tribunais de excepção para te executar quando esse gesto
foi um gesto da mais pura libertação? Porque se todos o fizessem as
guerras morreriam à nascença e seria a verdadeira e pacifica lei dos
homens a definir quais os conflitos pelos quais vale a pena lutar, o que diga-se de passagem ao longo dos tempos foram muito poucos…
Em nome de quê abandonas a tua família, o teu lar?
Ganharás apenas demónios interiores com os quais não vais saber viver se sobreviveres, ou então uma campa no meio do nada, isto se uma explosão
não te transformar em nada, sendo que apenas a tua memória e os momentos
antes da grande chacina os teus te poderão velar?
Nem Deus, nem Pátria, nem economia merecem a tua auto-chacina, apenas
Tu e aquilo que amas, apenas o teu dia a dia de paz merece a ignominia
de partires para não voltares mais?
Existem certos povos primitivos que há séculos que não lutam, há
Séculos que são felizes há séculos que não matam mais do que aquilo que comem…
Continua cego, continua escravo, obediente à frente dos ecrãs dos novos Big Brothers que através do preço do barril, da religião, da democracia deturpada
Te prometem o céu enquanto na realidade na penumbra te preparam o inferno,
Continua que eu continuarei a escrever pela eternidade fora esta:

Carta ao soldado desconhecido

Poema protegido pelos Direitos do Autor
Miguel Patrício Gomes
Enviado por Miguel Patrício Gomes em 20/04/2006
Reeditado em 20/04/2006
Código do texto: T142074

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Sobre o autor
Miguel Patrício Gomes
Portugal
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Miguel Patrício Gomes