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DE HOMERO AO "ULISSES" MEDIANTE UM LANCE DE CITAÇÕES

DE HOMERO AO “ULISSES” MEDIANTE UM LANCE DE CITAÇÕES





      Aviso aos navegantes : “Corra sobre paus e pedras,
            não quebre as pernas.” (1) (Walter Benjamin)






     “_ VEM, DULÇOR DA MUSA ETÉREA - E PARA MIM APLACA O CAOS   DO TEMPO...” (Hölderlin. “Diotima”)

     Chegamos à ilha Eólia. Nela, tanto Homero quanto Virgílio estabelecem a morada dos ventos:

“Do Hipotades Éolo, aceito aos numes,
 À ilha abordamos, a nadante Eólia,
 De éreo muro infrangível circundada
 Sobre liso penedo...”      (Homero.“Odisséia”, Canto X)

     Na ilha, o Rei Éolo, investido de grande autoridade, procura conter a fúria dos ventos e das tempestades. O Rei, assentado num elevado trono, e empunhando um cetro, procura moderar os ânimos, abrandando as fúrias. Juno, suplicante, ao lado de Éolo, assim implorou:

“Eolo, o pai dos divos
  E rei dos homens te concede as ondas
  Sublevar e amainá-las; (...)
  Ventos açula, as popas mete a pique,
  Ou dispersas no ponto as espedaça (...)
       A quem Eolo: ‘Que o desejes basta;
  Meu, rainha, é servir-te...”
  Ruidosas tempestades varrem terras e mares.     (Virgílio.“Eneida”, Livro I)

“O navio que levava os lícios e o fiel Oronte recebe, sob os olhos do próprio Enéias, o choque dum vagalhão enorme: o piloto é sacudido e, inclinado para a frente, cai de cabeça; mas o navio torna três vezes sobre si mesmo, e é engolido pelo rápido turbilhão. Poucos nadadores aparecem no vasto abismo, e com eles flutuam as armas, as tábuas e os tesouros de Tróia.” (Virgílio. “Eneida”, Livro I)

     Entretanto, o deus Netuno, governando o seu império, com uma calma imperturbável...

“sentiu que o mar se agitava com grande ruído e que a tempestade se desencadeara e que os abismos tinham sido revolvidos nas suas profundezas (...) vê a frota de Enéias dispersa pelo mar e os troianos oprimidos pelas ondas e pelo céu que parece cair sobre eles (...).”  (idem acima, ibidem)

     E fala nestes termos:

“Ousastes, sem minha permissão, ventos insolentes, turbar o céu e a terra e soerguer estas enormes massas? (...) e,  mais depressa do que o dito, acalma os mares encapelados, põe em fuga as nuvens acumuladas e faz o sol brilhar.”   (idem acima, ibidem)

     Os sobreviventes, então, todos à proa, lançam as âncoras.
     Em seguida, a remo, a nau alçança a praia...
     
     Na areia o mar rebenta e, surpreendidos, os naúfragos miraram para a baía da cidade de Dublin.
     Data: 16 de junho de 1904.
     Dia vivido de maneira privilegiada - pois, trata-se de data consagrada no calendário do mundo ocidental (2) - por um certo Leopold Bloom, por sua esposa Molly Bloom e por seu amigo Stephen Dedalus. Perambulações de Leopold Bloom (o Odisseu moderno) pelas ruas, avenidas, cantos, antros e recantos da cidade de Dublin. Beco sem saída...
     Perdido Paraíso Provinciano. Dublin do ano I da Era Paradisíaca: “Imperium romanum ... soa mais nobre que britânico ou brixtônico ... É aqui que nos achamos. Construamos uma latrina”.   (Joyce. “Ulisses”)

     O mundo parece afundar na penumbra. Vozes distantes entoam cantos de despedidas:

“Canta, ó Musa, o varão que astucioso,
  Rasa Ílion santa, errou de clima em clima...”  (Homero.“Odisséia”, Canto I)

“... foi-se deste mundo o sol do Espírito, o mais belo,
     E em caliginosa treva raivam agora tão somente os furacões.” (Holderlin. “Diotima”)

“Onde estão meus heróis?
  Onde estão vocês, meus filhos?
  Onde estão os meus ...
  os de espírito tedioso, os originais.
  Fala-me Musa do cantor imortal que,
  abandonado por aqueles que o ouviram,
  perdeu sua voz.
  Que se tornou poeta
  ignorado e zombado
  no limiar das terras de ninguém.”  (3)

     FLORES DO ÓCIO...

     Mal raiou a filha da manhã ...

“O galo cucuricou
  No céu o azul se espraiou:
  Celestes sinos de bronze
  Bimbalalaram as onze.
  Tempo para esta pobre alma
  Ter do paraíso a calma.”     (Joyce 1993, p.25)

     Currículo colegial. Currículo arrebentante. (a.J., d.J). Então:

“Um garoto moreno abriu o livro e fincou-o esperto contra o rebordo de sua sacola. E recitou trancos de verso com olhadelas e meia ao texto:

‘Não chores mais, zagal doído, não chores mais
 Pois Lycidas, coita tua, não está morto,
 Mesmo que imerso das águas sob os cendais’. ”    (Joyce 1993, p.23)

      Escola e Retórica:

“... a frase de Aristóteles se formou a si mesma em meio aos versos parlapatões e sobreflutuava no silêncio estudioso da biblioteca de Santa Genoveva ...”   (Joyce. Ulisses)

Tece, tece, tecedor do vento,
Tece, tece, Joyceware. (4)

     Beco sem saída. Professores indignados, bradam:
     _ Nossos jovens não conseguem redigir um texto com começo, meio e fim!

Tece, tece, tecedor do vento,
Tece, tece, Joyceware.

     A escola é ilha cercada de trepidações que desconhece.
     Ócio embotado na mente: a modernidade não entrou na escola!

     Bloom deambulando em Dublin:

“... avançava soerguendo seus olhos perturbados. Não pensar mais nisso. Passa da uma. O tempo de expediente abala nos escritórios do balastro. Tempo de Dunsink. Fascinante o livrinho de Sir Robert Ball. Paralaxe. Jamais entendi muito bem. Ali está um padre. Podia perguntar-lhe. Par é grego: paralelo, paralaxe. Metem-se picoses foi o que ela achou até que lhe falei sobre a transmigração. Oh, droga!”     (Joyce 1993, pp.117-8)

     Giambattista Vico e o conceito de evolução cíclica da história. Ressonâncias das concepções de Vico na obra de Joyce? O fluxo da consciência do sr. Leopold Bloom representa a reencarnação de Odisseu nos prosaicos dias dublinenses em princípios do século XX? Valorizando o espírito poético, afirma Vico:

“... as fábulas heróicas foram autênticas estórias dos heróis e de seus heróicos costumes, uns e outros florescentes em todas as nações, em seus tempos bárbaros. De modo que os dois poemas [“Ilíada” e “Odisséia”] de Homero resultam dois grandes tesouros de descobertas do direito natural da gentilidade grega em estado de barbárie.”             ( Vico 1988, p.116)

     Então perguntamos: a “Ilíada” e a “Odisséia”, ambas poéticas seriam algo que conseguiríamos construir em nossos “tempos esclarecidos”, em nossa modernidade?


OLÁ, ILUSTRAÇÃO, MEU NOME É NINGUÉM” (a permanente revolução do cotidiano)

     Rodopios da linguagem nos mares do tempo perdido: “Todos os homens deveriam ‘Unir-se para exaltar Ulisses’ (...) Joyce tomou a arte de escrever onde Flaubert a havia deixado” (Pound, 1991).  Em “Ulisses” a errância não tem mais sentido:
 
“ O livro, caído, escarrapachava-se contar o bojo do urinol laranjestriado.
   _ Mostre aqui _ disse ela [Molly Bloom] _ Pus uma marca nele. É uma palavra que eu  queria perguntar a você (...)
    _ Metem-se o quê? - perguntou ele [Leopold Bloom].
    _ Aqui está _ disse ela. _  Que é que isto significa?(...)
    _ Metempsicose?
    _ Sim. Que é que é que é isto?
   _ Metempsicose (...) _ É do grego: do grego. Significa transmigração das  almas.
   _ Oh, droga! _ disse ela._ Porque não dizer isso com palavras de todo o mundo?
   Ele sorria, olhando de soslaio o olhar zombeteiro dela (...).  (Joyce 1993, pp.51-2)

     Eis “O HOMEM COMUM ENFIM!”. Eis o homem sem características, homem ordinário (Certeau, 1994), ou, segundo Musil (1989), “o homem sem qualidades” - um representante anônimo de sua época sem nenhum caráter:

  “_ Ele é um homem sem qualidades!
    _ O que é isso? - perguntou Clarisse (...)
   _  Nada. Esse é que é o problema! (...) Hoje são milhões assim - afirma Walter - (...) É a raça que a nossa época produziu (...) Para ele nada é sólido. Tudo é mutável, parte de um todo, de incontáveis todos, que provavelmente fazem parte de um todo super todo, mas que ele absolutamente não conhece. Assim, todas as respostas dele são respostas parciais (...)”  (Musil 1989, p.48)

     Desorientados, cegos Homeros rodopiam ao som da “giga dos marinheiros”, no fluxo da vida cotidiana:

“Tralalá lalá
  Tralatá tralaladá
  Tralalá lalá
  Tralalá lalá”      (Joyce 1992, pp.17-8)

     A irrupção do cotidiano na literatura. James Joyce “se dispôs a fazer um inferno e o fez” (Pound, 1991). Joyce apresentou a Irlanda sob o domínio inglês; por extensão, o romancista irlandês apresentou todo o Ocidente sob o domínio do capital. Razão literária e razão pessoal: Stephen, Bloom ... “Ulisses”, obra vaga, proposital ou elaborada com muitos cuidados? Sugere o rosto de um herói, de todos os homens ou o rosto de NINGUÉM? Alusão e associação cômico-irônica com herói Odisseu, que declarou, na “Odisséia”,  ao gigante Polifemo ser “Ninguém” o seu nome? Do ponto de vista de Ezra Pound (1991), se “Joyce tomou a arte de escrever onde Flaubert a havia deixado (...); em ‘Ulisses’ levou adiante um processo iniciado em ‘Bouvard et Pécuchet’ (...) ‘Ulisses’ possui mais forma que qualquer romance de Flaubert”.
   
 

NOTAS

1. Walter Benjamin costumava dizer ao amigo Gershom Scholem que este era o seu lema secreto. Esta frase, que inaugura a introdução de um dos capítulos do livro benjaminiano “O Drama Barroco Alemão”, na opinião de Scholem, sempre amedrontou muitos leitores. Cf. SCHOLEM, Gershom. “O Golem, Benjamin, Buber e outros justos: Judaica I”. São Paulo: Editora Perspectiva, 1994, p.196.

2. Cf. “Bloomsday”, dentre milhares de sites: www.literaturaonline.com.br/bloomsday_04/bloom_04.html

3. Esta citação foi extraída de um trecho do monólogo de Homero, transitando pela espaços da Berlim do século XX – trata-se de um dos personagens do filme “As Asas do Desejo” (1987), de Wim Wenders.

4. Trocadilho composto pela soma da palavra software e pelo nome Joyce: “JOYCEWARE”, de autoria do filósofo francês Jacques Derrida. Derrida compara as obras “Ulisses” e “Finnegans Wake”, ambas de James Joyce, a computadores de milésima geração. Daí o epíteto “Joyceware”, para designar as referidas obras do consagrado escritor irlandês. Cf.  DERRIDA, Jacques. ‘Duas palavras’. In “riverrun... Ensaios sobre James Joyce”. Org. Arthur Nestrovski. Rio de Janeiro: Imago, 1992.

 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS (além dos textos mencionados em “NOTAS”- vide acima)

CERTEAU, Michel de. “La Prise de Parole: et autres écrits politiques. Paris: Seuil, 1994.

HÖLDERLIN, Friedrich. “Canto do Destino: e outros Cantos”. Org. Antonio Medina Rodrigues. São Paulo: Iluminuras, 1994.

HOMERO. “Odisséia”. Tradução Jaime Bruna. 13 ed. São Paulo: Cultrix, 1994.

________. “Odisséia. Tradução Manuel Odorico Mendes. São Paulo: Ars Poética, 1992.

JOYCE, James. “Ulisses”. 8 ed. Tradução Antônio Houaiss. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1993.

MUSIL, Robert. “O Homem sem Qualidades”. 2 ed. Tradução Lya Luft, Carlos Abbenseth. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1989.

POUND, Ezra. A Arte da Poesia: ensaios escolhidos. 3 ed. São Paulo: Cultrix, 1991.

VERGÍLIO. “Eneida”. 9 ed. Tradução Tassilo O. Spalding. São Paulo: Cultrix, 1992.

VICO, Giambattista. “Princípios de uma Nova Ciência”. Tradução Antonio L. A. Prado. São Paulo: Nova Cultural,1988.

VIRGÍLIO. “Eneida”. Tradução David Jardim. São Paulo: Ediouro [s.d.].



PROF DR. SÍLVIO MEDEIROS
Campinas, é outono de 2006










SÍLVIO MEDEIROS
Enviado por SÍLVIO MEDEIROS em 30/04/2006
Código do texto: T148113

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SÍLVIO MEDEIROS
Campinas - São Paulo - Brasil, 61 anos
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SÍLVIO MEDEIROS