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Leite com conhaque

Essa manhã acordei com o gosto do Leite com conhaque que você me levava cedinho para tomar.
Eu ainda sonolenta,cheia  de preguicinha e você já cheiroso de banho tomado,me acordava como se já fossem dez horas,e as cinco e meia íamos nós rua a fora, ainda escuro, para a fazenda dois quarteirões acima de nossa casa...Lembro-me do cheiro do curral,eu dizia cheiro de vaca,e você sorria e dizia que era o melhor perfume,o estrume!
Eu olhava encantada seu sorriso enaltecendo aquele cheiro e aquela sujeira toda,as vaquinhas pisando na bosta fresca,ai que horror!E sorrio agora ao lembrar,que nos meus quatro aninhos isso era nossa maior aventura.Você via encantado a mãe natureza, o retireiro ordenhando a vaca e o milagre do leite saindo espumante e quente,e você lá, já com o conhaque preparado,eu claro tomava puro, sem a bebida.
Via você virando os copos e me fazendo tomar vários ,dizendo que era saúde.AH! aos quinze anos desenvolvi intolerância ao leite de vaca,a lactose e nunca mais pude tomar leite!-coisas da mãe natureza, né Pai?rss
Hoje acordei cedinho e fui caminhar pela rua e cheguei até a fazenda...e lá fiquei olhando os prédios que agora tomam o lugar do curral,os carros transitando onde antes sentávamos em um pedaço de tronco e eu te namorava com meu olhar puro.
Sabe Pai,a cidade mudou de cara,o interior cresceu,a fazenda que existia bem no centro da cidade onde moramos,desapareceu.
A casa da vovó tombada pelo Patrimônio,demoliram sabotando as leis...mas as portas e janelas de madeira grossa e trabalhada o dono da pizzaria comprou e hoje entro pela porta da casa da vovó pra comer pizza.
Seus amigos se despedem da vida um a um,e você faz tempo já foi,eu me pego olhando a minha volta assustada,e procurando a parte de mim que se foi.
Sabe a casa do ex-presidente Wenceslau Braz? a casa do Gilberto sobrinho dele,onde íamos tomar chá com a Tia Lurdes,tombada também,tá caindo,precisando de reformas e já há quem ache que toma lugar de um belo prédio.
Sinto o cheiro da vaca...continuo minha caminhada,até que vejo que a rua esta cheia de estrume,as contradições de nossa cidade,ainda temos cavalos que nas carroças trafegam levando entulhos,mas as charretes sumiram,eram os táxis do passado,e era tão bom!
Mas,em meu passeio vou revivendo emoções,e me fortalecendo para o dia que surge.Faço parte de tudo isso e também mudo,me transformo e vejo tudo por um novo prisma,cresci.
Vou agora tomar meu café,agora sem leite,sem conhaque,sem espuma,sem cheiro de vaca,mas ainda em nossa mesa,ainda em nossa casa.

Syl Signoretti
Enviado por Syl Signoretti em 05/08/2006
Reeditado em 18/01/2008
Código do texto: T209585

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Sobre a autora
Syl Signoretti
Itajubá - Minas Gerais - Brasil
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