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palavras

1

palavras que são como os apeadeiros onde os comboios não param nunca. palavras que são como crianças que namoram sozinhas com a chuva. palavras que são como ventos que assobiam no que resta das ondas. palavras que são como armas carregadas pela pólvora dos sonhos. palavras que são como as flores que crescem no campo de um sorriso. palavras que são como gente que se alimenta no cadáver de um poema. palavras que me são proíbidas.

2

chegam-me sempre primeiro as palavras que o sono. na grande maioria das vezes, chegam desordenadas, chegam como se um furacão ancestral as embrulhasse num sudário de aço e as libertasse, a todas, de uma só vez, sobre a falésia húmida e sem fundo da insónia. não servem para nada as palavras assim molhadas. colam-se umas nas outras como aves incompreensivelmente distribuídas pelo vazio do céu, colam-se umas nas outras pela ordem errada, como aves incompreensivelmente vazias de céu.

3

nunca as palavras me pareceram tão inúteis. deveriam ter dedos e unhas e mãos as palavras e a poesia. há uma árvore de trapos envenenados a crescer-me na luz e não há palavras que lhe sequem a sombra. houvesse pelo menos uma mão a sufocar-lhe as raízes e seria mais fácil ouvir esta música que entra pelas janelas. por todas estas janelas que antes se pareciam com poemas, como todos os poemas se pareciam com janelas, mas todas as janelas são vidros foscos e todos os poemas estão já escritos como se portas seladas fossem. todos os poemas estão já escritos e acabados ou não seriam ainda poemas.

Luís Abreu
http://luisabreu.resolucaoinfinita.com
Luís Abreu
Enviado por Luís Abreu em 14/08/2006
Código do texto: T216652
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Sobre o autor
Luís Abreu
Portugal, 43 anos
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Luís Abreu