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Toda Flor

Dos anos anteriores eu não lembro bem , mas isso não importa, ("Não vou ficar contando aqui a porcaria da minha autobiografia" me lembrou Salinger, e Holden, e me deu ânsia de vômito, e tive que correr para o banheiro, vaso sanitário, e na minha cabeça bulimia, e antigos amores, mas volto que tenho que contar uma história!) mesmo daquele casaco verde meleca, daquelas blusas xadrez que tanto gostava, e de outras coisas que já estou me estendendo demais e ainda nem comecei o que tinha que dizer. Era uma judiazinha bonita com uma flor na orelha que vi um dia passeando na Avenida Paulista apesar de nunca ter ido lá pois não ando muito por essas bandas de São Paulo a qualidade do ar é baixa e sofro de problemas respiratórios desde os três anos e nem que eu quisesse e tentasse eu conseguiria o meu irmão à noite ou de dia mas principalmente à noite pois fica mais evidente que as estrelas não aparecem porque é sempre quente e nublado e o sol se esconde e sabem como é que os cientistas dizem é o efeito estufa sua fé e ela balançava a cabeça e sorria um pouco e a flor que não sei nem como conseguia respirar naquele monte de fumaça que eu não conseguia e que se não fosse um sonho e eu não sabia se não era mesmo um sonho mas se não fosse e eu estivesse realmente ali na frente dela com um livro do Saramago na mão e os indicadores de qualidade do ar piscando vermelho deveria começar a tossir desesperadamente e a cuspir sangue e a vomitar meu pulmão como vomitei a droga do apanhador no campo de centeio no vaso sanitário de uma estação rodoviária e acho que vou acabar vomitando isso do josé saramago também porque meu intestino tem andado sensível e é só degustar algo um pouco mais amargo que começo a cuspir sangue e dar ataques histéricos típicos de mulherzinha que ela acaba tendo que passar a mão na minha cabeça e rir consigo mesma(de mim) e dizer que é só entrar numa loja qualquer vamos ver uns discos que logo-logo você se acostuma com o ar que no inicio é assim mas depois melhora e eu que não conseguia parar de olhar para flor no cabelo dela e também aquele sorriso de monalisa um pouco tímido mas que mostrava uma espécie de carinho e as mãos dadas caminhando felizes pela calçada falando bobagens comendo bobagens e esperar ela na frente de um sebo esquisito e o pombo defecando no meu braço e logo depois o pombo pousando no ombro do moço pintado de prata e estragando toda a encenação mostrando a falta de profissionalismo que se move e espanta o pombo e que ninguém mais vai dar notas ou moedas ao menos ninguém deveria não acho certo gratificar estatuas que se mexem e ela voltando e me emprestando um lenço que tira do bolso e limpa rápido os restos da merda do pombo e contando que foi cantada e rindo do velho tarado sim era um velho tarado e ria mais um pouco me lembrando bukowiski me lembrando um monte de outras coisas e pessoas que não sei quem são mas apareceram e disseram que ia ter uma festa na casa de outra pessoa que disse que estava se mudando e queria festejar a despedida ou a inauguração qualquer coisa pra ter uma desculpa pra reunir os amigos e eu que nem amigo era mas apareci por lá mesmo assim e aquele menino engraçado que me abraçava como se fosse a primeira vez que me via sabendo que já tinha visto ele em outro lugar mas não podendo mesmo dizer onde e pensando que dejá vu e que um dia quando estivesse mesmo dormindo no sofá abraçado com ela e com tudo isso de carinho que nos meus sonhos eu tinha certeza que era amor e que eu fosse para o computador meio cansado depois de uma outra noite de insônia e começasse a escrever aquilo tudo de inútil de inútil de inútil que eu sempre escrevo e fingir que esquecia dos pontos e das virgulas e das coisas todas que me aconteceram pele contra pele suor língua pele suor corpo boca desejo e dizer que depois de tudo a única coisa que não podia esquecer era daquela flor ali no cantinho que não sei como podia respirar que não sei como conseguia continuar viva e tão linda cheia de cor e ouvir um galo cantar e lembrar que está frio que já é de manhã e os galos nessa cidade cantam com uma lagrima só umazinha para dar um tom poético escorrendo no meu rosto.
Chico Motta
Enviado por Chico Motta em 08/09/2006
Código do texto: T235633
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Sobre o autor
Chico Motta
Niterói - Rio de Janeiro - Brasil, 30 anos
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