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Ia escrever sobre meu amor pela minha queridinha de cabelos rosas, tinha até começado, mas fui a cozinha pra repor meu estoque de liquido preto borbulhante e lembrei de uma outra coisa que resolvi contar ou porque não custa sair da rotina

Antes de tudo volto a dizer que quero absinto checo, dos mesmos que tomavam Rimbaud, Baudelaire, et tous les bhoemes français du belle époque - pardon , est ce que quand je suis heureux , je parle en français, je parle le pire de mon français, lê pire du pire du pire, ok pára de escrever em francês seu idiota, prob..vavelmente ela não vai entender nada disso - E eu escrevo isso pra ela, escrevo pra essa menina que olha a capa do livro na minha mão tentando reconhecer o titulo, Burroughs, Almoço Nu, geração beat, estou numa livraria e vejo essa edição moderna, procurava um Cortazar para Julia, sim aquela dois andares acima, bonita, pontas roxas, sorriso no rosto e filme divertido na televisão, mas não, não tinha o Octaedro, não tinha, e eu saio da estante dos livros que já li mas vale a pena dar de presente, passo pela estante dos que nunca li e não tenho mesmo a menor vontade de ler, chegando assim na dos que sempre disse que li e está chegando a hora de começar a lê-los de verdade, Ali está, é esse mesmo, Burroughs, não precisa nem embrulhar, abro já no caminho e folheio rapidamente, Lembra-me eu escrevendo, lembra-me das desventuras cínicas nos bares de botafogo, lembro que tinha que comprar um hamster, é, sim, tinha me esquecido, nossa, o hamster da Carminha, e pensava no seu sorriso ao receber o presente, e sorrindo sozinho também como se fosse comigo mesmo, olhando no relógio e perguntando por petshops, Lemos Cunha, mas antes do petshop um comentário seria pertinente, você com os amigos andando e conversando era tão bonito, como eu tenho tido prazer em observar os transeuntes de Niterói, os calouros da Uff pedindo dinheiro, as velhinhas e suas muletas, a dona que desmaia na porta do prédio, e os alunos desses diversos colégios com seus uniformes e toda sua adolescência brilhante e encantadora, eu gosto dessa sensação Niterói de existir, gosto disso de todos se conhecerem e ninguém saber quem sou, gosto da coincidência do petshop ser do lado do bar onde você se senta e eu descobri que não tem hamster chinês só sírio e o sírio é grande demais e a Carmen queria um chinês, saio da loja um pouco decepcionado e sento no bar para observar você, para observar você e ligar para um colega argentino, ele cria animais e, bem, ele deve saber onde tem uma petshop decente, uma com peixinhos e tudo, Moreira César, numa galeria que esqueceu o nome, desligo o telefone e penso se vou até lá ou continuo te observando, um, dois, três, quatro, e você se levanta, parece que vai a algum lugar, vou atrás, sigo um pouco sem graça, tentando disfarçar, entra no campo de são bento e eu continuo te acompanhando com os olhos, barraquinha de sorvete, e compra seu sorvete e volta pro bar, não posso voltar também, e já que estou em pé é melhor ir logo ver a coisa do hamster, e vou, vou descendo a Otávio Carneiro até a Moreira César, que caminho por ela toda e o máximo que acho é uma garotinha pequena com uma carinha de rato tão fofinha que quis adotá-la para mim, ela e a mãe tomando suco no Matinata, e eu criança tomando suco no Matinata, morando na Otávio Carneiro e tomando suco no Matinata, e estudando no Abel, e me apaixonando pela Aurélia, ha, quem diria agora ela fazendo Direito na Uerj, e eu Direito na Unirio,eu morando seis anos no rio, dois anos em Petrópolis, mais um no rio com minha irmã , e tanta coisa, tanta coisa para acabar voltando para Niterói, voltar para essa cidade minha que não me reconhece mais, essa cidade em que ando pelas ruas e dou conselho a calouros, sorrio muito que resolvi voltar ao bar, e vocês estão lá, sim, você e seus amigos bebendo... coca-cola, minha nossa vocês vão a um bar beber coca-cola, que coisa bonita de se fazer para vestibulandos, e eu que sempre me ri da irrealidade de malhação e seus suquinhos no gigabyte, olha aonde estava agora, com uma garrafa de cerveja em frente a um grupo de jovens saudáveis da classe média niteroense, falando mal dos outros como qualquer outro grupo de jovens de classe média no Brasil, que sempre gostou da menina mas..., e algo sobre ela ser estranha, pontos de referência, pessoas gordas, enquanto oscilava entre a vontade de continuar lendo meu livro e a diversão de observá-los conversar, acabei decidindo pela segunda opção, os comentários daquela menina loira com namorado eram sempre tão pertinentes que não conseguia conter o riso, de certo já haviam me percebido há muito tempo, mas eu continuava ali, continuava ali assistindo seus diálogos envenenados , observava aquela movimentação toda como um filme, um filme sobre a vida cotidiana dos vestibulandos do Salesiano, com direito a cerveja e um livro para ler caso me sinta muito entediado, em certo momento você se levanta e diz, tenho que ir, mas não vai, senta de novo e age como se nada tivesse acontecido, não entendo bem e me pergunto se já não é o álcool que começava a sentir, o álcool que me deixava alegre e me fazia olhar fixamente para você , me fazia deixar claro que estava olhando para você, só para você, as vezes vacilava o olhar um pouco em sua amiga, mas em geral para você, você mexendo os braços e eu sem entender o que dizia, você atrás da cabeça do menino igual a todos os outros, você segurando sua bolsa e dizendo que agora sim ia embora, e eles todos se levantando e resolvendo ir também, que eu me resigno ao fim do meu filme b de sessão da tarde, a musica do final abaixando e os créditos começando a passar, e eu abro novamente o livro, começo a lê-lo, e fico pensando em tudo que aconteceu no dia, pensando que ao chegar em casa iria escrever isso para ela, escrever para essa menina que olha a capa do livro na minha mão tentando reconhecer o titulo, Burroughs, Almoço Nu, geração beat, e me diz seu nome Carolina, e eu a deixo ir com a esperança calada de um texto lembrança que queria revê-la - Sorrio bonito para terminar.
Chico Motta
Enviado por Chico Motta em 09/09/2006
Reeditado em 09/09/2006
Código do texto: T236195
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Sobre o autor
Chico Motta
Niterói - Rio de Janeiro - Brasil, 30 anos
7 textos (188 leituras)
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