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A criança na varanda

Fico aqui me embalando sozinha, ansiando pelo colo quente e macio e um beijo na testa. Mas isso só quando a cabeça parar de doer, quando o coração parar de sangrar, quando o olhar parar de aguar, quando eu não quiser mais morrer, quando minha voz se soltar, quando meu amor voltar e meu sorriso estiver figurando nesse rosto cansado, repleto de olheiras que contam histórias dessas noites mal dormidas.
Tenho vontade agora de olhar na varanda e cair de cabeça. Mas eu sei que isso passa. Isso tudo vai passar, sim. Estou voltando aos trilhos agora, aos poucos, em baixa velocidade. Afinal tenho minhas trôpegas palavras escritas que não mentem, mesmo que duvidem delas, mas sei que elas nunca mentem. Tudo isso para quando eu conseguir parar de chorar, um dia quando eu conseguir... Eu às vezes odeio o tempo. Ponho toda minha esperança nele e ele vem contra mim, não passa e ainda fica me agredindo. Deitar, andar, conversar, é tudo um saco. Fico aqui rezando e esperando placidamente que a hora passe e a paz chegue. Sei que ela vai chegar. Tenho uma série de orações começadas nas minhas noites insones pra me provar isso. Tento não me deixar abater por essa espera implacável. Isso tudo fere, mas não tanto quanto a dúvida se o terei novamente em meus braços e se estarei novamente no seu coração.
Me sinto perdida como uma criança, uma pequenina que martela o dedo, que se perde no parque, que sente dor de estômago de medo de nunca mais achar o caminho de casa. Nem sei o que quero hoje, sei que estou sentindo tantas coisas... E devo parar de tremer para que meu ingênuo coração de criança fale por mim. Tremendo, lembro o quanto tenho medo de perder o rumo, tendo que recomeçar uma vida que não quero, aliás, que nunca realmente quis pra mim, uma vida sem amor. Por isso, tenho me feito companhia enquanto ele não está. Busco consolo pra preencher esse vazio que o amor deixou, um espaço que queima até fora. E agora que não sei mais crescer? Onde eu fico nisso tudo? Nem aqui, nem ali. Fico nesse buraco escuro e úmido da depressão, dentro dessa pessoa que nem sou mais eu toda. Sou apenas anos de busca, achado e sabedoria suficiente para não saber lidar com isso tudo. Sinto uma lástima bem forte e acabo ganhando da vida dores menores, quando na verdade mereço as grandes que já senti antes e provavelmente sentirei em breve. Será que suportarei? Ah, mas sempre tem aquela
varanda...
Kilya Stella
Enviado por Kilya Stella em 12/09/2006
Reeditado em 06/07/2010
Código do texto: T238837

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Sobre a autora
Kilya Stella
Curitiba - Paraná - Brasil, 42 anos
27 textos (2504 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 05/12/16 23:16)
Kilya Stella