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A DIFERENÇA DOS DIAS

Um dia vi fatos que não queria ter visto.
Noutro dia quis ver fatos e não vi nada
Nem sombra
Nem desejo
Nem saudade.
Vi a cara do vazio e ele estava cheio.
Cheio de vazio.
Tinha tanto vazio que não tinha mais onde enfiar vazio.
Cheíssimo...
E aquele dia passou como passam todos os outros.
Com a diferença de que era um dia cheio de vazio,
Mas foi... 

Noutro dia queria ter lembranças diferentes das lembranças que eu tinha,
Mas não me veio nenhuma outra lembrança diferente da que eu tinha.
E naquela que eu tinha havia tanta lembrança que eu 
Nem lembro quantas eram.
Só sei que eram todas que eu não queria.
E aquele dia passou como passam todos os outros
Com a diferença de que era um dia cheio de passado,
Como se coisas mortas fossem sementes e meu peito fosse terra adubada...
E brotavam
E rachavam
E fecundavam mais e mais mortes,
Sementes de morte,
Pomares de morte,
Jardins de morte,
Flores de morte. 

Noutro dia, cansado de tanta morte,
Descobri que a morte às vezes não mata; cansa...
Às vezes a morte não sabe ser morte.
E aquele dia passou como passam todos os outros
Com a diferença de que eu não estava morto de cansado;
Estava cansado da morte.
E nesse mesmo dia não desejei mais dia nenhum que
Passasse como todos os outros.
Só queria a diferença que todos os dias traziam.
Porque não havia dia em que não havia diferença:
A diferença dos dias.

O sentimento mais renovador é o cansaço.
Às vezes mais produtivo que o amor, ele é
Um cavaleiro a procura de um desafio.

Noutro dia, apaixonado pelas diferenças,
Queria ter uma diferença diferente, mas não consegui
Porque eu ainda era o mesmo.
Mudaram as pessoas mudaram meus amores,
Minhas coisas,
Minha casa,
Meus sonhos,
Meu reino, mas eu não...
E aquele dia passou como passam todos os outros
Com a diferença de que a diferença não fez
Muita diferença porque mais do que do cansaço
Eu precisava da coragem...

E a coragem não é nada complicado não.
É apenas um empurrãozinho no cansaço,
Uma vitamina B12 no espírito,
Um pouco difícil no início,
Mas deliciosa no final...
E naquele dia conheci meus medos.
Alguns velhos e alguns novos medos
Quase todos acompanhados de uma decepção
Adesiva,
Corrosiva,
Viva...
E aquele dia passou como passam todos os outros
Com a diferença de que a coragem não veio,
Mas, como em todos os outros ela também não vinha,
Esse dia era igual aos outros com a diferença de que dessa vez
Eu sabia que não havia diferença.
E isso fez a diferença...

A coragem resolveu me visitar.
Eu abri a porta.
Não liguei o som; liguei o silêncio.
Não ofereci água; ofereci minha sede.
Não puxei a cadeira; puxei o chão.
E senti o cheiro escuro da franqueza da coragem.
A coragem é a única virtude que não pode mentir.

Colhi os frutos do tempo com as próprias mãos
E ao levá-los à boca algo impediu o curso dos meus braços.
Parecia que eu estava com muita fome e eu enxergava
Mais a fome do que o alimento em minhas mãos
E cegava-me o desejo,
O apetite...
Vi-me na sala vazia:
A multiplicidade das coisas,
O lado desconhecido da morte
(Que é apenas ausência de identidade mais nada),
O cansaço inconsciente,
A consciência do cansaço,
Tudo isso me foi roubado pela coragem,
Sem arma,
Sem ameaça,
Sem violência, e quase sem dor.
A coragem é o único ladrão que quando invade sua casa
Só leva aquilo em que não pode tocar
E te deixa tão sozinho que até a solidão te abandona...
A coragem te deixa apenas com a tua força.
Com a força que você até já tem, mas,
Como você não sabe, a coragem te presenteia
Com a tua própria força.
A coragem é feita de vazios.
E mesmo sem levar coisas materiais,
A coragem te deixa mais leve. 

A solidão é feita de lembranças;
Quanto maiores as lembranças, maior a solidão.
Até que um dia você começa a sentir falta da solidão
E aí quem te abandona é a coragem. 

E os dias...
Os dias não te abandonam nunca
Até que um dia quem abandona eles é você.

Iguaçu
Enviado por Iguaçu em 21/09/2006
Reeditado em 15/12/2006
Código do texto: T246169

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Sobre o autor
Iguaçu
Nova Iguaçu - Rio de Janeiro - Brasil
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