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Olho do alto de onde alcanço e sinto e aproveito o vento que me envolve. Me Sinto grata por ter vivido tudo isso até aqui. Apesar de todo o meu tormento, eu ainda guardo dentro de mim um ou outro sentimento nobre e que se aproveite. Viver dói. Mesmo que eu não queira que doa, mas tudo isso me forçou a entender o sentido das palavras sacrifício e sofrimento e isso também me deixa grata.
A grande dor é por saber que sou infestada de defeitos e que, por mais que a dor me ensine, o passado não pode ser mudado. Queria poder mudar o passado e expurgar de mim essa doença que tanto me consumiu.
Depois de tudo isso me tornei mais humana, mais real e finalmente entendi o peso que tem o perdão. Não que eu não saiba perdoar, mas porque precisei pedir para não explodir, para não morrer mais um pouco e, confesso, para tentar começar a perdoar a mim mesma.
Queria me livrar dessa impotência e desse vazio que habita em mim desde que comecei a me perceber de verdade.
Eu reaprendi a rezar, porque acredito que algo esteja me movendo sem que eu tenha vontade, algo que me faz ir adiante e respirar todos os dias. Quando não tenho vontade de nada, tenho ao menos a mais pura necessidade de melhorar as coisas, de mudar o mundo, o meu mundo e o mundo dele.
Quando fecho os olhos ouço a voz dele quando éramos adolescentes, risadas de crianças, sinto o sol da minha terra natal, as piadas de velhos amigos, a mim mesma jovem e ingênua e sem todo esse peso. Ouço tudo isso e choro de saudade. E de uma tristeza que veio com o tempo, por tudo o que era lúdico estar se desmanchando em frente a mim e por eu não poder fazer nada, além de entregar a minha fé ao universo, de conseguir ainda ser feliz com os que amo até o final da minha vida, por maior que seja a tristeza e esse vácuo que me deixa sentada, abraçando as pernas e chorando.
Eu salvo de tudo isso meus amores e minhas lembranças dos dias felizes. Eu me sinto um acidente, uma tragédia, mas sobrevivi então adoraria que parte da dor passasse. Diante dessa vontade que me atinge forte, é preciso que eu mantenha a sanidade em doze passos, sendo que o primeiro e mais difícil, eu já soube dar.
É difícil assumir que falhei, mas assumo despida de tudo e dotada de um sentimento maior que eu, esperança. É por ela que não salto de onde eu deveria, que espero que o alívio da música chegue, que sinto que meus braços sejam capazes, que me mantenho firme e decidida, mesmo chorando feito um bebê que dá sua primeira respirada da vida. Sinto falta de tanta coisa ou de não existir, de quando eu não era nada e não machuquei ninguém. Com os olhos cheios, pesados, deixo a água salgada descer até a boca pra lembrar-me que a tristeza tem sal. Me deito no chão com braços e pernas abertos, olhos fechados, cabelos espalhados e ele chega e senta-se ao meu lado. Não me mexo porque não consigo. Estou vulneráel, exposta, pura, como um bebê que não corre porque não sabe. O perigo que me rompam a carne e a alma são grandes, mas me deixo assim entregue para só assim poder recomeçar de verdade.
Kilya Stella
Enviado por Kilya Stella em 29/09/2006
Reeditado em 06/07/2010
Código do texto: T252243

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Sobre a autora
Kilya Stella
Curitiba - Paraná - Brasil, 42 anos
27 textos (2504 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 06/12/16 20:07)
Kilya Stella