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estrada quente, muito quente...

(Surreal)

...havia dias que eu andava sem rumo... era uma estrada torta, meio suja, um tanto mórbida... parecia de gelo e no canteiro direito havia uma floresta em chamas... na ala esqueda, menos perto do que a outra, um grande paredão de pedra preta... os meus pés de pato pedalavam um patinete de três rodinhas enfileiradas de modo que conjugavam os seis vértices de um trapézio estranho, talvez fosse o tal trapézio sublimado de Brás Cubas ou tratava-se das curvas não elípticas, parabolóides excêntricas que compõem o enigma do universo paralítico e quem sabe até uma bolha de sabão, a bolha configurou-se em matéria e extendeu sua grande forma abolhada apontando-me, como se fosse eu o centro do universo, envolveu-me e logo eu pude entender toda a complexidade vã da bolha... a indescritível estrada era longa... havia dias que nela perdia-me sempre... o sol era sempre alto e não me lembro de ter visto algo diferente, todos os dias, todas as horas... o pretume da parede escorreu como uma onda... não caí... lembrei-me do patinete e da bolha... girei o patinete no alto da bolha que me envolvia e a grande máquina tornou-se um aparelho voador.. de fato posso já ser chamado de engenheiro... a onda passou boba e expressiva.. grande inventor!... ria-me, ria também a máquina... cansei-me daquele escárnio e estourei e lâmina da bolha... cai como quisera... a onda preta tinha apagado o fogo da mata... continuo sem água, sem nutrientes... a verdade é que já estou perdido há tanto tempo neste nada que o calor me incomoda... a mata despedaçada tinha um levante dantesco que vinha em minha direção... os animais corriam soltos e eu naquela savana contemplava a altura dos elefantes... montei numa zebra que fugia de um leão... meus pés se enrolam, vejo ao longe um horizonte azul de um azul sempre reto e liso como se houvesse uma régua no infinito definindo e conceituando um ente geométrico: a reta... eu menos sóbrio do que antes costurei minhas pernas com um dos braços vendo um terno pitagórico que refletia em sua superfície as propriedades coligativas de um foco bivalente e monocôncavo, clivadamente eu,,, e então a vista... e logo tudo... era interessante ver correndo um delta acidentado... enquanto uma espira ecoava o som da valsa última tocada no palácio de Versalhes... a bastilha era tomada e eu gritava "ARMAS AOS SOVIÉTES" no tempo e com a cara errada... ainda no tirângulo havia o outro braço que tentava formar um teatraedro regular e as ligações sigmas do carbono central iam rompendo-se e rearranjando-se em ligações Pi... eu elemento tetravalente tinha na cabeça os traços de todas as moléculas orgânicas... um vórtice acelerado quadraticamente lançou em mim toda a narrativa e meu corpo espiralizou-se, separou-se em dois... helicoidalmente... eu grande proteína anterior tornei-me ácido nucléico primitivo... encurtei-me segregando-me em vinte e três pares cromossômicos que se desnaturavam por conta do calor pungente...


Will Aziz
Will Aziz
Enviado por Will Aziz em 18/10/2006
Código do texto: T267136

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Sobre o autor
Will Aziz
São Carlos - São Paulo - Brasil, 31 anos
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Will Aziz