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Os Segredos do Crepúsculo

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(Vertido de tcheco por Dalibor Vrba
Redigido por Maria de Fátima Baptista Néry-Plch)
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DILEMA
(escrito juntamente com MUM alAthin)

SOBRE O ABISMO
FIM DO CAMINHO.
VOLTAS COM UM PASSO EM FRENTE?

* * *

Na Caça
(Terceira Visão do Ardor)

Naquela manhã saí para caçar fantasmas. Não é nada fácil caçar um fantasma. Mais difícil de que o lograr vencer o tigre ou o homem. Mas quando o príncipe vence o não apanhável, torna-se rei. Não sou príncipe, mas apesar disso saltei ao mar de chamas. Para captar o hálito do Inconseguível.
E fui engolido e vomitado e o fantasma continuava nos meus braços..
Depois despertou e começou a tremer.
Cacei o fantasma, mas, não sendo príncipe, não cheguei a ser rei.
Cacei o fantasma, não sabendo contudo se consigo segurá-lo...

* * *

Apócrife

E chegou-se Jesús até à serpente e pronunciou: "Levante-te e vai!"
E a serpente levantou-se e foi-se.

* * *

À Feira

Apareceu na feira.
Parou à mesa vazia.
"Alma à venda!" apregoava tristemente.
As pessoas riam-se.
"Vendo a minha alma!" soltava pregões amargos.
Aproximou-se o Diabo.
"Compras?" perguntou o negociante num tom cheio de esperança.
"Não," requintou o Diabo e sumiu-se na multidão.

* * *

Espelho

Espelho moribundo.
Cegando calmamente torna-se inútil. O exantima de manchas é catarata. Não tem cara, tem todas as caras. Não tem alma, tem todas as almas. Mas como se perde, bocadinho por bocadinho, lança por partes o seu infinito, que não diminui, mas apesar disso desaparece.
É uma vista triste.
É para morrer.
E ao fim, num lixeiro qualquer, perde a última migalha do reflexo claro.
O espelho morre
E com ele
O mundo.

* * *

Deuses e Milagre
(para Howard P. Lovecraft)

Há momentos, nos quais aparece, sobre o monte de Olymp, o Sol e a Estrela no mesmo instante. É a altura em que os Deuses erguem as cabeças e olham, pasmados, aquela maravilha. É que acontece apenas uma vez por Aeon que a aurora do Sol permite à Estrela iluminar os celestes também ao meio-dia, sem o Sol perder o seu brilho. Nem um bocadinho dele.
Há momentos, nos quais nos defrontamos, sobre o monte de Olymp, com um milagre que assombra os próprios Deuses. Ficam mesmo admirados. E, então, voam acima para tocarem esse ser duplo. É neste comenos que tudo se torna envolvido em trevas e pela frígida profundidade do Universo ressoa apenas um riso tilintante, mas mais alto do que a música da órbita. Aos poucos, também, o riso emudece e os Deuses ficam sós.
Recolhem-se às suas sedes esplêndidas e/ou aos seus calabouços tenebrosos, insultam-se mutuamente, soltando injúrias, titulando-se de tolos. Passado algum tempo acalmam-se e voltam à sua vida do antigamente. Criam mundos, governando-os em conformidade com a sua querença. Fazem amor, bailam, cantam, divertindo-se... Mas sentem um profundo Vazio nas suas almas, não conseguindo supri-lo.
Acabam por deslembrar-se; os Deuses também esquecem.

* * *

Ninguém em nenhuma parte
(para MUM alAthin)

Não se encontrava ali. Ninguém sabe onde é que estava. Mas ali não estava...
Por quê? Talvez por ter estado noutra parte. Pode ser que não tenha existido. Teria mesmo existido? Só se perdeu como se nunca tivesse existido.
Ou porque...

* * *

O Segredo do Crepúsculo
(para uma Cidade-sonho)

Anoitece...
Passas por uma rua estreita. Entreolhas as montras dos alfarrabistas semiesquecidos que talvez escondam nas prateleias cheias de pó ao lado de harlequim, grimoares escritos em árabe abrindo portas aos segredos dos mundos estreais.
Anoitece...
Depois de teres andado várias horas, começas a ter fome. Um vendedor mudo oferece-te castanhas num corneto de pergaminho.
Comerisca-las e passas os olhos pelo manuscrito árabe desbotado no pergaminho.
Não percebes árabe.
Atiras o corneto fora.
Continuas andando.
Anoitece...
As casas encolhidas, as janelas videntes e cegas e pelas calçadas correm lágrimas.
Como se algo esperasse por aqui, chamado Golem, pronto a castigar-te se falasses mais alto de que o cochichar.
Estás aqui apenas de visita.
Rua sem desvio.
Há quanto tempo bamboleias por esta ruela esquecida fadamente linda.
Anoitece...
Não há regresso.
Via para a eternidade...

* * *

Ao Final

Outro cepo torna-se cinza.
Cruz? Mas sim, ainda está de pé. No horizonte coberto de neve. Da mão de Jesús o sincelo que pendia era lembrança de época, em que houve calor.
Ideia falsa.
As duas cousas - o derreter e o Cristo. Jamais vai aquecer; passo a passo, devagar, de maneira, como vão acabar os estoques de madeira - vamos torná-los gelo.
Por que é que O adoram?
Por que é que rezam ao pé das suas cruzes?
Tenho frio...
Queimem-nas!
Jaroslav A Polák
Enviado por Jaroslav A Polák em 01/11/2006
Código do texto: T279619
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Sobre o autor
Jaroslav A Polák
República Tcheca, 41 anos
1 textos (23 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 11/12/16 02:37)