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ABIÓTICA

"Não quero ter a terrível limitação de quem vive
apenas do que é passível de fazer sentido.
Eu não: quero é uma verdade inventada!"
- Clarice Lispector -


Roupa suja e uma vida por lavar a seco continuam emboladas num canto qualquer de um cubículo formado de livros, idéias, fomes e muitos papéis empoeirados aquinados num quarto de dormir eternamente desmantelado e em desuso.

Houve muito abandono superado ali e muito desrespeito aos seres que habitavam aquela quase caverna.

Tornaram-se, mais propriamente, um depósito de esterco: não aprenderam a fazer amigos e a influenciar pessoas como mandava a mediocridade reinante do manual de etiquetagem de Dale Carnegie.

Pena e vergonha. Luta inócua. A música já não diz mais nada. A arte nasce estagnada. A vida anda perdida em mil conjecturas. Os robôs comandam as normas e não podemos dizer mais se somos ou não felizes sem que eles nos autorizem.

[Robôs vivem impregnados de falsas humanices e decências codificadas. Tudo cheira à imundície...]

Já não há muito a fazer. As verdades difíceis, serão apenas sentidas e, aos poucos, tristes e azuis, se calarão resignadas. As fáceis, serão programadas para os dias ruins todavia não farão o menor sentido.

Num mundo ideal as pessoas como nós fariam sentido. Você e eu, sujos e loucos, faríamos sentido. Nossa verdade inventada faria todo o sentido do mundo.

E o que temos seria chamado de exuberância. Seríamos rima e também solução. Mas não. Não estamos no mundo ideal e vivemos num sub-projeto de Plutão.

E não cogite em lavar essa estranha roupa suja.

Estamos ambos empoeirados de memórias e dos sons que saem desse seu cubículo sujo e desmantelado.

Dispa-se confortavelmente de mim e dessas memórias. Sem medo. [O medo é abioto e nos deixa ocos por dentro, como marionetes repletas de um grande vazio e com aquele olhar de quem sente só as dores grandes].

Dispa-se. Não temas ficar nu de mim e de minhas pequenas verdades bobas. [Verdades inventadas e todas as mentiras sinceras sempre me interessarão. Sério e muito!].

Do lado de cá, estamos todos nus e limpos. Não tememos mais nada e não há falta de sofrimento algum.

As verdadeiras sujeiras [essas que nos fazem tanto mal e que os homens inventaram pelo prazer de poder inventar sujeiras] ainda que mil vezes lavadas, jamais limparão.

O resto, você sabe: pode e deve ser passado...
A seco.
LILLY
Enviado por LILLY em 05/11/2006
Código do texto: T282545
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Sobre a autora
LILLY
Recife - Pernambuco - Brasil
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