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Vocação para Bicho

Vocação para bicho.

Quando bem pequena tinha uma vocação para Bambi, a gazela-bebê, e também para Dumbo, o elefantinho voador.  As asas dos meus pequenos pensares eram tão imensas quanto as do elefantinho...
Ser criança não é mole não: os adultos parecem árvores muito altas, como uma floresta fechada, impedindo o olhar da gente para o céu e, na luta pelo nosso lugarzinho ao sol, nos sentimos órfãos, como Bambi e Dumbo, mesmo tendo mãe e pai.
Fiquei mais forte e a vocação mudou para macaquinha. Comi bananas o dia todo, subi em árvores, encontrei caminhos entre os cipós, vivi ao ar livre, solta, ou em bandos, a fugir dos homens e suas casas, de cidades cercadas.
Precisei, no entanto, ficar mais forte e me sabia “selvagem”. Mas só me tornei onça de verdade quando me descobri mãe e arranjei um fiel companheiro para me ajudar a cuidar da ninhada.
Tenho me sentido anfíbia, com vocação para tartaruga do mar, e terrestre-aérea, nos preparos de lagarta-para-borboleta, me arrastando no chão a sonhar com o breve momento em que me tornarei uma estrela cadente.
Como tartaruga, tenho me viciado em comer verde, não posso ver uma folhinha tenra, nham, frutas, nham-nham, me escondo dentro da carapaça, quando vislumbro qualquer possível ameaça, com uma velocidade! (e nem adianta bater na carcaça porque eu viro pedra).  Esta lentidão de sentir e pensar é pré-histórica, coexisti com dinossauros, e o meu passo, hoje em dia, é em câmara lenta.  Mas quando nado, ah, quando nado, estou no meu elemento, nas águas dos afetos, nado bem...
Como lagarta, tenho conhecido ambientes escuros, e ando muito, deixando rastros luminosos e aderentes, úmidos.  Perita em casulos, fico quieta a esperar o momento de mostrar o meu sari de longas mangas, bem colorido, tecido nas entranhas, abrir os braços, líbera, e me soltar nos ares: metamorfoseada.
Bicho sabe o que lhe faz bem e o que lhe faz mal, conhece seus predadores e tem suas defesas prontas para os ataques. Conhece os motivos da disputa com seus rivais, as regras da luta são respeitadas por um e pelo outro.
Como bicho, sei o que é a paz comigo, com um mundinho bem meu, feito de pedras, árvores, lua, sol, água, frutas, noites, e com outros companheiros semelhantes, sei dos perigos que preciso enfrentar, e perigos que não conseguirei evitar, nem querendo.
Como bicho não entendo a ironia. A vida se apresenta direta, clara, cristalina através do que vejo, sinto, percebo, toco, ouço, degusto.
Como bicho, vivo e morro, simples assim. E o mundo continua...

saralu
Enviado por saralu em 05/11/2006
Código do texto: T282770
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Sobre a autora
saralu
Franca - São Paulo - Brasil
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