Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

Perfeição Tola

Olho para a perfeição tola dos muitos mundos aqui
Que neste mundo exibem-se
Nos rostos dos rotos humanos
Que me são companheiros,
Satanás.
Perfeição... Perfeição!
Ah, dizem que a perfeição é o caminho humano
Que todos os humanos almejam assim como
Os ratos mais imundos almejam ser
Os ratos mais imundos ainda
A comerem um lixo melhor.
Eu quero ser perfeito?
                                  Eu quero ser perfeito?
Ah, Satanás meu amigo, nada como ser perfeito aqui,
Perfeito aqui neste mundo de perfeição tola
No qual a imunda poça chamada esperança humana
De paz para toda gente humana
Cai sem roupa decente em lama indecente.
Ah, Satanás com face de Diabo, ontem mesmo
Eu assisti na Rua Da Desgraça ao assassinato
De mil crianças inocentes com sonhos
Que beiravam os delírios dos adultos culpados
Por todas as mortes diárias.
Ah, Satanás com face de Lúcifer, ontem mesmo
Quando vi aquelas crianças morrendo
Lembrei-me que quando criança eu também fui
Amante da Deusa Inocência
E agora como adulto culpado eu pago minha penitência
Por ter me tornado como todo adulto culpado
Amante da Deusa Desgraça.
Eu quero ser perfeito?
                                   Eu quero ser perfeito?
Culpados hoje os adultos são demasiadamente sendo
Tolos que se acham no caminho de pedirem a si mesmos
Por uma perfeição que apenas aos Antigos Deuses
E aos Antigos Demônios era dada pelo
Espírito Que Concede A Deusa Perfeição Ao Que Exibe
Desde O Berço A Deusa Perfeição.
Satanás, que ridícula trama de delírios diários agora é
Este mundo que tento poder amar mas apenas odeio
Como mar de agulhas venenosas a me assassinarem por todo lar,
Trama de humanos que querem equiparar-se aos Antigos Deuses
Que hoje apenas observam as quedas dos humanos
Pelas vias de orações por uma Verdade De Mendigo
Denominada Verdade De Deus Único,
Trama de humanos que querem julgar aos Antigos Demônios
Como os culpados pelas quedas através das horas que
Eles mesmos moldam por não saberem deixar de contar
As horas estranhas às horas conhecidas.
Humanos não nasceram para serem Antigos Deuses,
Satanás.
Humanos não nasceram para serem Antigos Demônios,
Satanás.
Humanos são Deuses Desgraçados que casaram-se com os seus
Interiores Demônios Desgraçados,
Satanás.
E ainda Lhe culpam, Satanás, quando Suzanes e Cravinhos
Pelo mundo humano ridículo cometem crimes
De aparência mais terrível do que a verdadeira face humana
Vista pelo Espelho Que Quebra Ao Visualizar Faces Quebradas.
Eu quero ser perfeito?
                                   Eu quero ser perfeito?
Perfeição tola agita-se neste mundo nos rostos humanos que
Vagam pelas ruas, pelos ônibus, pelos trens, por toda
Esquina maldita onde as Pombagiras dançam bebendo
Cachaças lançadas aos pés dos pobres passantes humanos.
Um dia passei por uma sombria esquina da Rua Da Miséria,
Satanás, de mãos dadas com a minha desgraça e com os pés
Todos arrastados esfolados pelo solo queimado pelas cachaças
Das Pombagiras que me rodearam.
Ali, Satanás, Maria Mulambo e Maria Padilha Da Encruzilhada
Perdida brigaram por um prato de comida que jazia
Ao pé de um humano estranho a um primeiro olhar meu.
Ajoelhei-me ao lado do estranho humano, Satanás, reconheci
Aquele rosto estranho, expandi sorriso estranho, ergui-me
Para gritar que aquele estranho humano era todo humano
Que tentava ser perfeito quando nem ainda o perfeito
Sabe que existem seres estranhos chamados seres humanos.
Eu quero ser perfeito?
                                   Eu quero ser perfeito?
Sorri, gargalhei, cai sorrindo, cai gargalhando, Satanás,
Enquanto Maria Mulambo e Maria Padilha Da Encruzilhada
Perdida brigavam pelo prato de comida daquele estranho humano
Que reconheci como todo humano que busca
A perfeição tola de querer ser perfeito antes de avisar
À Deusa Perfeição que existe e que quer ser perfeito.
A briga ficou maior, eu sorria maior, eu gargalhava maior,
Satanás, aquele estranho humano retorcia-se tentando
Alcançar o seu prato de comida que estava estragada.
Sorrindo mais, gargalhando mais, Satanás, eu vi o rosto
Daquele estranho humano, é um rosto do modelo mais belo
Da imbecilidade humana, é um rosto do modelo mais belo
Da canalhice humana, é o rosto do ser humano quando acorda
Pelas manhãs das vidas humanas dizendo-se
Que a felicidade está próxima ou a felicidade já está em si.
A Deusa Felicidade me ouve agora, Satanás, e gargalha, pois
Nunca soube que aqui esteve ao lado de um ser humano
Que disse que a possuia.
Eu quero ser perfeito?
                                   Eu quero ser perfeito?
Maria Mulambo, Satanás, ganhou a briga chutando para uma Esquina Da Rua De Todas As Pombagiras Vencidas a sua adversária
Maria Padilha Da Encruzilhada Perdida.
Maria Mulambo, Satanás, pegou o prato do estranho humano,
Enquanto eu continuava a sorrir, enquanto eu continuava
A gargalhar, começando a saborear a comida dos que se acham
A caminho do pedido pelo carinho da Deusa Perfeição.
Maria Mulambo, Satanás, não conseguiu comer nada, a comida
Estava mais estragada do que o estragado, a comida estava
Gerando vermes que nem alimentariam cães leprosos,
A comida me fazia sorrir pelo estado ridículo do pensar humano,
A comida me fazia gargalhar pelo estado escroto do agir humano.
Maria Mulambo, Satanás, ergueu-me e me chamou para dançar,
Em mim esfregou-se, caimos em uma roda de samba tocada
Pelos Zés Pelintras De Todas As Almas, caimos em redor,
Sambando como Deuses Sem Dó em redor do estranho humano
Que se contorcia de vergonha por querer ter sido um algo
Que humano algum pode dar ao seu lago.
Eu quero ser perfeito?
                                   Eu quero ser perfeito?
Satanás, dancei em redor do estranho humano com aquela
Rainha Maria Mulambo, sapateei como não-humano, rodopiei
Como não-humano, sorri como não-humano, gargalhei como
Não-humano, pisei muito naquele estranho humano, pisei demais
Naquele estranho humano.
Satanás, dancei muito, vi mundos dançando, obtive visões de
Mundos perfeitos que dançavam em Esferas Perfeitas, ao toque
Daqueles Tambores Das Encruzilhadas e ao som das gargalhadas
De Maria Mulambo assisti ao que jamais um humano poderia
Assistir sendo apenas humano.
Satanás, eu queria parar de dançar, mas eu dançava sorrindo,
Eu dançava gargalhando, eu me via ali, eu me via aqui, eu me via
Lá, eu me via, eu me via... Amigo Satanás, eu me via no
Estranho Humano!
Satanás, eu me via no estranho humano, eu me via terrivelmente
No estranho humano do qual escarneci, o qual desprezei como
Se eu fosse perfeito, como se eu fosse perfeito!
Eu quero ser perfeito?
                                   Eu quero ser perfeito?
Perfeição tola me atingiu, Satanás, atingiu a mim que de
Perfeito não possui nem o dançar, eu parei assim de sorrir, eu
Parei assim de gargalhar, mas Maria Mulambo não me deixava
Parar de dançar, parar de rodopiar, parar de me ver ali naquele
Estranho humano repugnante!
Eu precisava parar! Eu precisava parar de dançar! Eu precisava
Parar de rodopiar! Os Tambores! Os Zés Pelintras! Maria Mulambo!
Sem ar! Sem lugar! Sem armar! Sem parar! Sem lograr parar!
Sem sair! Sem lograr sair dali!
Satanás, a perfeição tola me viu, a perfeição tola vi, a perfeição tola
Vi em mim! Eu cai da Morada Celestial que moldei em mim, da
Morada Celestial, Satanás, na qual me sentei em um trono
De arrogante metal incrustado de orgulhosas pedras preciosas
De cintilante cor a toda cor a mais desprezar!
Eu cai, Satanás, eu cai, eu cai, quando parei de dançar, empurrei
Maria Mulambo, cai à frente do estranho humano, corri dali,
Ouvindo Maria Mulambo gargalhar, ouvindo os Tambores a tocar,
Ouvindo os Zés Pelintras a cantar!
Corri dali, corri dali, Satanás, sem rumo para rumar, sem muro
Para murar, sem rua para asfaltar, sem esquina para chegar,
Sem lar para construir!
Eu quero ser perfeito?
                                   Eu quero ser perfeito?
Nas mãos do Deus Pesadelo neste pesadelo perfeito que estou a
Lhe narrar, Satanás, continuei correndo, continuei correndo,
Em toda esquina eu via o estranho humano, que sorria para mim,
Que gargalhava de mim!
Nas mansões do Deus Desespero neste desespero que estou  a
Lhe narrar, Satanás, continuei correndo, continuei correndo,
Em toda esquina eu via o rosto do estranho humano, um rosto
Estranho quando das primeiras infinitas esquinas, um rosto
Conhecido quando das ainda primeiras infinitas esquinas!
Nas prisões da Deusa Verdade nesta Verdade que estou a
Lhe narrar, Satanás, parei de correr, parei de correr,
Cai ajoelhado em uma esquina da Rua Da Certeza, Maria Padilha
Das Santas Almas Benditas a dançar um Samba Cósmico
Tocado pelas Estrelas Ocultas Das Encruzilhadas, em um canto
Da esquina o estranho humano sentado a comer estranho
A comida verminosa de ser estranho prato.
Naquela liberdade da Esquina Cósmica Da Certeza nesta certeza
Que estou a Lhe narrar, Satanás, chorei de horror, chorei de horror,
O estranho humano possuía o meu rosto, o estranho humano possuía
O meu estranho rosto, comia como eu comia, me olhava como eu me
Olhava, sorria como eu sorri, gargalhava de mim como eu dele
Gargalhei, se aproximou de mim como eu dele me aproximei.
Naquela aproximação próxima ao sapatear cósmico de Maria Padilha
Das Santas Almas Benditas nesta aproximação que estou a Lhe
Narrar, Satanás, chorando de horror, chorando de horror,
O estranho humano parou de sorrir, o estranho humano parou de
Gargalhar, o estranho humano chorou de horror, o estranho humano chorou de horror, o estranho humano me abraçou, o estranho Humano não quis dançar.
Eu quero ser perfeito?
                                   Eu quero ser perfeito?
Sonhei ali comigo perfeito, Satanás, enquanto Maria Padilha Das
Santas Almas Benditas em nosso redor dançava, sapateando para
Estremecer todo aquele Solo Da Certeza de que eu e ele éramos
A Humanidade Perfeita.
Acordei, Satanás, abraçado ao estranho humano, com a certeza de
Que a perfeição tola já é humana, ela é que faz toda Humanidade
Acordar todo dia de seu pesadelo que pensa ser um sonho para
O palco que um dia irá receber a Deusa Felicidade sem ao menos
Aceitar o jugo agora real da Deusa Infelicidade.
Maria Padilha Das Santas Almas Benditas continuou a sapatear
Em redor de mim, Satanás, enquanto eu e o estranho humano nos tornávamos Um, Um para toda a Humanidade, Um para toda a minha odiada Humanidade, Um para a odiosa Humanidade.
Maria Padilha Das Santas Almas Benditas continuou a sapatear
Em redor de mim, Satanás, enquanto eu adormecia deitando-me
Com um grande choro que não se acaba naquela esquina da Rua Da
Certeza, tornando-me um estranho humano de perfeição tola como
Todo humano é um estranho humano procurando uma perfeição
Tola.
Eu quero ser perfeito?
                                   Eu quero ser perfeito?

 
 
Inominável Ser
Enviado por Inominável Ser em 07/11/2006
Código do texto: T284258

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original. Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
Inominável Ser
São João de Meriti - Rio de Janeiro - Brasil, 40 anos
85 textos (31699 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 04/12/16 12:42)