Margens de uma vida

 

Há de ter o dia em que minhas mãos envelhecidas, não encontrem forças para erguer esta espada que chamo de caneta, e as batalhas todas já tenham sido vencidas pelo tempo.


Talvez, meus olhos que viram de tudo: as guerras, os partos e tantos espasmos, e orgasmos, e escuridões que me dilaceraram a alma, então não possam ver as linhas e nem a margens e assim as paginas fiquem vazias dos meus versos , das minhas prosas, das minhas secretas fantasias. Não haverão então os meus diários!

Pode acontecer que minha voz seja embargada pelo tempo, pela emoção de uma longa vida e eu não cante mais meus versos e as minhas prosas fiquem lentas e quietas como se nelas eu carregasse o amanhecer de um pequeno vilarejo, nestes lugares o amanhecer é quase sempre tão pacífico quanto o despertar de uma criança


Ah! Neste dia, sabe Deus o que farei com o silêncio de minhas mãos, com a quietude de meu corpo, espero que haja em minha mente a sabedoria que deveria ter todo poeta, para aceitar a vida.

E se assim o for, saberei que minha alma ainda atuante e viva como se fosse as minhas próprias vísceras, e meus membros e meus sistemas mais sensíveis me farão morrer como um poeta, a decantar a vida, sem lamentos e sem dolos, sem idolatrias vãs, bastando-me apenas a certeza de ter quebrado todas as correntes e vazios que meu coração um dia teve com a verdade que deixarei nas palavras que ficarão em meu lugar na margens dessa vida, agora a decantar-me.


Cristhina Rangel


Cristhina Rangel
Enviado por Cristhina Rangel em 14/03/2011
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