Texto para dois - Final

(Ele acorda e se prepara para sair, mas antes de deixar a casa tenta um beijo na esposa que dorme)

(Ela acorda)

Ele: Estou saindo.

Ela: Melhor não! Fique aqui.

(Ela se oferece, ele resiste, foge dela.)

Ela: Por que dá as costas? Por que não volta aqui e cumpre o seu papel um pouco? Parece que está morrendo? Está morto, por acaso? Morreu e me deixou aqui casada com um defunto? Pretende ser alguma espécie de mártir? Espera que eu seja casta? Espera mesmo que o meu corpo simplesmente pare de responder às minhas vontades? Não! Não! Agora fique, agora ouça, olhe para essa minha cara cinza e ouça:

“Eu lhe traí. Eu preciso falar agora! Preciso gritar na sua cara, chover todas as minhas nuvens, todas essas que estão aqui na minha cabeça. Traí sim! O fiz em reposta a um desejo que há muito me corroia! Um orgulho próprio! Não queria dar um basta ao nosso relacionamento, mas o poço fundo e seco no qual você se afundou me incomoda! Eu queria que tivéssemos emoções, desejos, calafrios, brigas até. Eu queria aquela vida de volta, aquela que você fez questão de guardar num livro. Nem sei se é maravilhoso ou leve, talvez seja só cansativo, enfadonho como o nosso sexo, mas – pensando bem – qual?! Ontem à tarde fiquei medindo no espelho as palavras, fiquei procurando, buscando – mesmo - uma forma racional de dizer tudo isso. Ensaiei gestos, algumas frases... Você está aqui agora ou fugiu no começo do desabafo?!”

(Ele começa a se afastar dela, desorientado.)

Ele: (chorando baixo) Estou atrasado. (expressão de dor) Preciso ir, mas... Preciso de um banho. Eu quero lavar de mim a sua chuva.

Ela: Não adianta você virar os olhos e lavar o corpo esperando limpar a alma, dissolver a culpa. A minha continua comigo e a sua não vai lhe abandonar.

Ele: (vira-se para ela, uma mistura entre atração descontrolada e repulsa) Por que você me evita? Por que me afasta?

Ela: Você se afastou!

Ele: Sim! E você não mudou isso!

Ela: E eu devia?!

Ele: Não?! De outra forma eu jamais faria, jamais diria o que preciso!

Ela: E o que é?!

Ele: (fugindo) Eu nem consigo sentir nojo de você! O seu corpo!

Ela: Continue!

Ele: Ah, o seu corpo que era tão meu em tantas coisas. Nessa pinta! Nesse seio! Eu ainda devia estar por aí em alguma curva, nessas pernas (tocando-a com fúria). Você não me sentiu escorrendo por você?

Ela: Você não escorre em mim há tempo.

Ele: Mas sente o outro lhe deslizando ainda?

Ela: Que diferença faz?

Ele: Toda a diferença.

(Indo para a cama, ela na cama ele no chão.)

Ela: Como pode fazer diferença as mãos que passaram pelo meu corpo se agora ele está limpo? Se limpo, ele tem lhe esperado. Esperado respostas, pedindo todas as noites, mas apenas esperado solitário. Que diferença vai fazer depois que você tiver manchado todo o meu corpo novamente?

Ele: Toda a diferença. Porque você vai dormir e eu vou ficar procurando no seu corpo os detalhes da nossa transa. E se eu encontrar algo que não é meu?!

Ela: Não vai achar!

Ele: Não vou?!

Ela: Não vai! Procure! Procure!

(Ela na cama debruçada sobre ele no chão, ao pé da cama.)

Ele: Não vou achar? Mesmo que procure por aqui (aventura-se no corpo dela)? Ou por aqui? E se lhe apertar demais?

Ela: Não vai achar! Procure! Deixe – você - as antigas marcas em mim!

Ele: Eu não posso deixar.

Ela: Por que?

Ele: (puxa ela para si a senta entre suas pernas, voltada para frente, passa os braços por ela apertando-a) E se eu lhe apertar contra mim, se me unir demais a você, se não deixar detalhe algum?

Ela: Não vai achar!

Ele: Por que? E se lhe apertar pra mim com mais força (começa a machucá-la,envolvendo-a com o lençol e puxando)?

Ela: Não vai achar!

Ele: (com o lençol aperta o seio dela, sufocando-a) Eu me afastei de você! Tive vergonha! Porque não consegui dizer pra você que estou indo! Não consegui lhe dizer o que me aflige! E você? Esperei de você uma reação de esposa. Esperei o abraço, o consolo, uma pergunta? Mas o que você me ofereceu? Com o que você me presenteou? Você me traiu? E por que você acha que eu não vou achar marcas estranhas no seu corpo? Por que eu sou incapaz, por que eu nem mesmo pude notar que lhe perdia enquanto você se afastava mais e mais de mim por minha culpa? Por que? Por que acha que não vou ver que outro homem esteve no seu corpo?

Ela: (sufocando) Porque é mentira!

Ele: Agora! Agora que você plantou a dúvida! Agora que sinto medo! Bem no meio da dor dessa minha doença. Agora que as minhas mãos estão te sufocando com esse pano – ele era vermelho – agora é mentira?!...

Ela: É mentira! Inventei tudo!

Ele: Mais alto!

Ela: Queria você de volta... Queria cuidados... Atenção... Inventei tudo...

Ele: Mais alto! Me responde com força que é pra eu afrouxar os punhos, que é pra eu lhe deixar na cama bem e ir morrer mais no meu trabalho. Grita que tudo foi mentira! Grita! Grita! (desesperado, afrouxando o lençol por conta de um acesso de tosse, cobrindo a boca com o lençol)

Grita meu amor!

Olha!

O lençol está vermelho!

Ele está vermelho!