Saudades da Minha Vida...

           Saudades do
                    
                         Meu Ser!...

 
 
 
              Nasci em Russas, à terra dos laranjais.
Ainda guardo o sabor da sua laranja, de paladar sem igual!...
E foi embaixo das suas copas e no frescor do seu pomar que brinquei com barquinhos de papel quando era feito a irrigação. 
Sobre as folhas e flores de laranjeiras adormeci, dormi ao ouvir cantar meu sabiá laranjeira...

Ali, descansei e sonhei com uma vida inteira
que teria pela frente...

 
Nestes laranjais à noite com uma lamparina facheei para pegar passarinho quando eles dormiam... Apenas pelo prazer de pegar...
Pois no dia seguinte com pena do passarinho devolvia para seu lugar...
Dava muito mais prazer que o simples fato de pegar.

Sinto saudades dos velhos carnaubais, das oiticicas, da lagoa das bestas e da malhada grande...
Sinto falta de tudo que fazia parte do meu cotidiano...
Das noites de luar, das debulhas de milho
e de feijão, das estórias de trancoso e de adivinhação, do sobe e desce da gangorra,
da brincadeira de cabra-cega, da manja, do esconde-esconde e de tantas outras
brincadeiras que inocentemente existiam.

Fui pra escola montado no lombo do Juruá,
o jumento que viveu por muito tempo em companhia de caboclo seu companheiro
e seu par e parelha na lida diária.

Sinto saudades do caminho da escola
entre o sitio e a cidade, onde tínhamos que atravessar as pequenas veredas, passar
beirando cercas e desviando de buracos.
Chegava cansado na ida e quase morto na volta...
Mas deste tempo sinto saudades.

 
Também era fantástico o meu passaredo,
pois sou da terra do pássaro carão,
da graúna, do corrupião, do anu preto e do branco, do sabiá da minha laranjeira, do meu canário da biqueira do casarão, do cabeça-fita da cana-fistula, da casaca de couro do pau branqueiro, o canário caboclo do pau pereiro,
do tiziu da estaca e do mourão
e das rolinhas a pastar e catar pedrinhas
no meu terreiro...

Das armadilhas para pegar preá,
arapuca para pegar nambu e alçapão
para pegar canário...
Ai que saudades me dá.

 
Sou da terra seca, que, sem água
e sem chuva ela vira torrão e ainda
se abre em fendas que chega doer
em meu coração
quando  ela mostra a sua sequidão.

 
Fui criança que comia feijão com rapadura, jerimum ou bata doce com leite.
Sou ainda do tempo que café da manhã era servido com coalhada, pão de milho o mesmo cuscuz!..
Do milho ainda vinha à pamonha, a canjica
e da mandioca a tapioca ou beiju.

No meu tempo não tinha pudim nem pavê... Rapadura ou batida, para os de casa
e para as visitas não faltava...
O doce de leite em caroço, mamão com coco,
a goiabada e a delícia da cocada.
Depois disso, uma caneca de alumínio
ou mesmo de flandres feita de lata de óleo
para tomar uns goles d’água!... Ai... tibungo...
Este era o barulho da caneca no fundo do pote com aquela água fresca e quase gelada
que saia do pote suado de fresco.
Só que o pote não era veado, nem tão pouco abaitolado...
Era um fresco por ser feito de argila preta
onde o barro era cozido. 

O leite, este era bebido em caneca de aluninho ainda no curral antes de amanhecer o dia. 
O que se bebia, era o leito chamado de mugido saído do peito da vaca quentinho e que nunca matou ninguém.

 
Sou do tempo que cobra engolia caçote,
se fazia embira, trança e bolsa de palha de carnaúba.

Também era desta palmeira “A Carnaúba”, reconhecida por Humbold, um naturalista alemão, como sendo ela, um dos mais lindos exemplares de resistência da seca do meu sertão.
Este a batizou de “Arvore da vida” tida como a mais bela palmeira deste meu rincão!...

 
É da carnaubeira que canta minha graúna,
é dela que se tira o pó para fazer a cera,
que de tão importante que já foi,
até  nos trouxe momentos áureos,
chamados estes de  tempos dourados no sertão.


Pois era com ela , a cera da carnauba que se fazia o famoso disco de cera, desde a época das 78 rotações.
As películas de filme fotográfico e cinematográfico e que nesta forma de filme nunca voltaram para o meu sertão, que ate hoje nem cinema tem!

E quem sabe e o que importa isto em plena época de CDs, USBs e Pen-drives?!
 
No meu tempo, os meus cavalos
eram feitos do talo da carnaúba, eu, era caprichoso nos detalhes.
Neles, galopei com as minhas pernas dando vida aos meus cavalos prediletos, alazões e castanhos.


Adorava vê-lo com o seu rabo de palha
levantar a poeira do chão.
Tirava deles, todo o prazer que podiam me dar... Pulava obstáculos, atravessava poças d´água, corria atrás de gado sem medo de arranhão!...
Exaustos, dava água ao cavalo e recompensava pela aventura do campeão.


Neste tempo em que a coberta das casas em sua maioria eram de palhas, a cumeeira era feita da tora e os caibros da lasca da mesma carnaubeira.
Assim, desde o telhado e o emadeiramento, tudo vinha desta nobre palmeira.

Eu vi carro puxado por dois bois encangados.
O famoso carro de bois com suas rodas de madeira travada no seu eixo roliço que deslizavam no sebo de carneiro e quando rodavam deixavam para traz à linda rinchadeira ou o canto do carro de bois.
E que pelo seu canto de longe já se sabia, que o carro que vinha, era de fulano de tal....

Nas noites escuras quem iluminava era luz do farol, também chamado lampião.
Este, sempre ficava na área nobre da casa e nas outras dependências, quarto, cozinha e dispensa era a velha lamparina a querosene com pavio de algodão é que aclarava e nos tirava da escuridão...

 
Meu fogão de lenha... 
As minhas panelas de barro!... Nelas eram feitos, desde o feijão ate a galinha caipira, e ainda se fazia a canela de boi e a famosa panelada...
Não faltava o bule na trempe com o café quentinho que fora torrado na caçarola
e pilado no pilão...

 
No alpendre do lado da sombra, entre os arreios, celas, coxim,  bride e bridão, cangalha, cambito e caçoa, as rédeas, os cabrestos, chicote, as esporas dos calcanhares, as roupas e o chapéu de couro, e o famoso  gibão...
Tinha de tudo que se precisava para uma montaria!... Em cavalo, burro ou jumento. que fosse para um passeio ou para campear um boi perdido campo.

 
Na minha casa, tinha cacimba que por ser grande chamava de cacimbão.
Um lindo poço de águas cristalinas.

Era de lá onde se tirava água com um balde, puxado na corda e no carretel, para encher as tinas de banho, os potes e as quartinhas de água pura e cristalinas para serem bebidas com prazer e com gosto de saudades do sertão...
 
Sou do tempo em que as BRs, eram estradas de rodagem, avião quando aparecia rasgando o céu era assombração, carro que passava na estrada era seguido pelos cachorros como se fosse um ladrão...
Bicicleta, só tinha quem era dono de alguma posse, quando podia, sai no seu cavalo de galope, mas pobre andava a pé ou no máximo montado em seu jumentinho, animais que hoje só se ver mortos nas estradas por carro ou caminhão...
 
Sou do tempo em que a missa tinha coroinha, padre e sacristão.
Da igreja, se ouvia o badalo do sino que avisava ao povo de qualquer situação... Tinha balo para chamar para missa, badalo das seis, do meio dia e da boca da noite que acontecia na hora da ave-maria, que acontecia às seis horas da tarde...
 
Hoje, os tempos são outros, os sinos não dobram mais! As igrejas fecham as suas portas para não ter roubado aquele que faz a badalação. Sino de bronze derretido da muito dinheiro para ladrão...
Isto sem falar das artes sacras, dos santos raros e caros encomendados por colecionadores que  sem escrúpulos e sem a menor noção de quanto aquele santo, mesmo feito de barro, tem valor para esta gente do sertão...
 
Fui menino maluvido, mas nunca fui atrevido. Embora desde criança tenha o espírito traquino... Dizem que até hoje faço traquinagem...
Acho que ainda é o resto do menino que carrego dentro de mim.

Nunca matei um sapo, muito menos um casote, atirar para matar um pássaro que fosse...
Nem pensar...

 
Botei cada pé em uma apragata (leia-se alpargatas), feita de pneu de caminhão.
Isto foi bem antes de aparecer às sandálias japonesas, hoje mais conhecidas como as havaianas... 

Meu chapéu de palha de carnaúba
protegia-me do sol escaldante do meu sertão.

 
Vesti calça curta e calção de tecidos riscado de algodão.
Cuecas eram feitas no murim branquinho e nem elástico tinha! Eram abotoadas com botões, depois de muito tempo vieram às abotoaduras
de pressão e elas as cuecas,
chamavam samba canção...

Andei de calça curta, comprida demorou um tempão...
Mas antes disto, fiz o catecismo para aprender
a reza que só usei quando fui fazer a primeira comunhão.

 
Menina moça usava corpete, anágua e combinação, as saias plissadas, se o joelho fosse exposto... Era a maior desmoralização...
Nem em capa de revista, se via algo de que fosse de tamanha adoração...

 
O bê-á-bá...  O caba para aprender a ler, começava em pé em volta da mesa,
não se tinha professora não...

Era uma Irmã mais velha, uma tia letrada
ou quem sabe alguém de fora que vinha
para dar as primeiras lições em numa cartilha. Assim aprendi.

 
Era até engraçado como a gente ia descobrindo cada uma das letras do alfabeto...
Pois era assim:

Pegava um papel, podia até ser um papel de pão! Fazia-se nele um buraco no meio.
Ai, a professora ia tapando tudo quanto que era letra e só deixando a mostra, aquela que a gente ia vendo através do buraquinho no papel... Assim, tentava-se adivinhar...
Era deste jeito que o caba ligeiro ia aprendendo letra por letra.
Agora, se o caba errava, podia ter ele a certeza que de lá vinha um cascudo, isto quando a professora era malvada, se fosse educada vinha de la pelo menos um beliscão...


Tinha caba que mudava até o lado da cabeça, é que de tanto errar tinha que mudar, se não sai com o quengo rachado de tanto levar o cascudo no mesmo lugar.
Assim o besta aprendia a custa do cascudo que doía, mas ele, não era besta de outro dia o alfabeto errar, não era doido de outros cascudos levar.
 
Sempre fui um caba inteligente e rápido no aprender, mas confesso que também levei os meus...
Tinha letra que no começo parecia igual. Ai todo mundo levava pau...
Pelo menos o som de cada uma delas que era parecido b com d, p com q, e estas letras eram viradas uma pra outra, assim, o caba no começo se enganava mesmo...
E ainda, tinha o m com n, que se dizia uma tem duas perninhas e a outra tem três perninhas!
Ate hoje  confunde se a palavra é com uma ou com a outra letra...
Mais aos pouco, mesmo o caba sendo burro ai-se aprendendo...
Ouvi muito dizer... Este ai vai dar pra jumento... Pobre do animal! Comparado a um caba de poucos miolos.
Lembro-me até hoje que as primeiras palavras que li e aprendi foi Ca-sa, bo-la, bo-lo, co-po, u-va, va-ca... E assim, fui dizarnando e lendo devagarzinho, porque ainda podia vim o maldito do cascudinho que ensinou a ler muito  caba burrinho...
 
Foi assim que aprendi a reconhecer cada letra do alfabeto.
Logo, eu estava juntando as letras. Coisa que faço ate hoje lembrando as primeiras lições...
E foi lá que aprendi também a multiplicar e dividir...
Na tabuada, aprendi a somar e a diminuir, coisa importante nesta vida que é somando que se dividi e se multiplica sem ter que diminuir.
No final, você tira os nove foras, e toda conta da certo. Principalmente quando se aprende as quatro operações da vida... Amor, dignidade, respeito e compreensão.
 
Usei chapéu de couro. Nunca deixei de ser um matuto, porque aquele que nasce no mato, nunca deixa de ser um matuto... Como quem nasce no Sul é sulista, que nasce no Norte é nortista.
Mesmo que você mude mil vezes de lugar, você nunca deixa de ser aquilo que você foi ou o que você é.

Assim, sou feliz por ser e continuar a sendo o matuto que sempre fui.
O que poucos têm coragem de dizer ou de ser.  

 
Eita!... Mundo difícil de viver nos dias de hoje....
Mata-se por brincadeira.
O caba que é direito, na boca de bandido e chamado de vagabundo, e se não anda com o dinheiro dele vagabundo, é capaz de perder a vida...
Tamanha é a confusão e a inversão dos valores...

 
Como queria voltar para o meu tempo, onde joguei cabiculina,  joguei bule ou buraco, soltei arraia, triangulo com arpão, soltei pião e que o chamava e ele vinha na minha mão.
Saudades dos meus canários cantadores que sumiram dos nossos pastos e das nossas laranjeiras,  Nem as penas eles  deixaram...

Minha rolinha cabocla, minha rolinha cascavel e a velâme, meu corrupião amarelo e preto, meu azulão, minha casaca de couro, meu peba, meu tatu, meu Tejo, meu camaleão, meu jumento carregando lenha seca par fazer fogo no meu fogão, tambem carregava os barris de água doce que enchia os potes da casa e cidade.   
Mulher para parir chamava parteira, e menino curioso ia se esconder la traz do curral, pertinho da porteira  para de longe ver a cegonha com bebê chegar...

Cresci sem ver uma cegonha sequer! Mas cresci pensando ser ela que trazia menino homem ou menina mulher... Doce inocência.
 
Doce, doce inocência...  
Sou do tempo, em que agora eu só o vejo em meus sonho.
Mesmo assim peço a Deus...
Acaba não mundão, o
s tempos são outros...
Eu, e que tenho que me acertar aos dias de hoje...

Mesmo cheio de saudades,  vivo dizendo...
Eu sou do tempo que tanto sinto saudades!...

 
Russas, 30 de Junho de 2012

 
*Flora da minha caatinga!...  Por Caroline Faria
 
   
  • Muitas vezes confundida com o cerrado, a Caatinga é um ecossistema típico do nordeste brasileiro.
  • A caatinga constitui uma paisagem bastante peculiar, uma vez que mesmo em região semi-árida, ainda apresenta uma fauna e uma flora bastante diversificadas com alto grau de endemismo.
  • A flora se constitui de espécies xerófitas (formação seca e espinhosa resistente ao fogo e praticamente sem folhas) e caducifólias (que perdem as folhas em determinada época do ano) totalmente adaptadas ao clima seco com predominância de cactáceas e bromeliáceas. O extrato arbóreo apresenta espécies de até 12 metros de altura, o arbustivo, de até 5 metros e o extrato herbáceo apresenta vegetação de até 2 metros de altura. As principais representantes do reino vegetal são: a aroeira, o mandacaru, o juazeiro e a amburana.
 
Árvore citadas:

                                         Carnaúba
  • A carnaúba (Copernicia prunifera), também chamada carnaubeira, carandá e carnaíba[1], é uma árvore é da família  Arecaceae endêmica no semiárido da Região Nordeste do Brasil. É a árvore-símbolo do Estado do Ceará, conhecida como "árvore da vida", pois oferece uma infinidade de usos ao homem: As razes têm uso nedicinla como eficiente diuretico; os frutos são um rico nutriente para a ração animal; o tronco é madeira de qualidade para construções; as palhas servem para a produção artesanal, adubação do solo e extração de cera (cera de carnauba), um insumo valioso que entra na composição de diversos produtos industriais como cosméticos, cápsulas de remedios, componentes eletronicos, produtos alimentícios, ceras polidoras e revestimentos.
 
  •                                   Oiticica
  • (Licania rigida) é uma planta da família   Chrysobalanaceae, endêmica na Caatinga e na vegetação típica da faixa de transição entre o sertão semi-árido do Nordeste e a região Amazônica)
                                           Pau d’árco
    
   Tabebuia, mais conhecido como ipê, pau-d'arco, ipeúva e ipé[1], é o generoneotropical mais comum da familia Bignociaceae.


                                             Pau Pereiro
(Aspidosperma pyrifolium) é uma árvore nativa da Caatinga nordestina, principalmente em várzeas fluviais e terrenos próximos a elevações de terra (serras, chapadas ou cuestas) . 





                                                           

























 
                                                


                                     Pau-Branco-do-Sertão

Pau-Branco-do-Sertão (Auxemma oncocalyx)1 Taxonomia e Nomenclatura
De acordo com o Sistema de Classificação baseado no The Angiosperm Phylogeny
Group (APG) II (2003), a posição taxonômica de Auxemma oncocalyx obedece à seguinte hierarquia:
Divisão: Angiospermae
Clado: Euasterídeas I
Ordem: O posicionamento de Boraginaceae no APG II, ainda não é totalmente claro.
Contudo, Cronquist classifica em Lamiales.
Família: Boraginaceae
Gênero: Auxemma
Espécie: Auxemma oncocalyx (Fr. All.) Baill
Publicação: Hist. des pl. x (1890) 396
Sinonímia botânica: Auxemma gardneriana Miers.; Auxema oncocalyx (Fr. All.) Taub.;
Cordia oncocalyx Fr. All.
Nomes vulgares por Unidades da Federação: no Ceará, louro-branco; pau-branco, paubranco- preto e pau-branco-do-sertão e no Rio Grande do Norte, frei-jorge, freijó, paubranco e pau-branco-preto.



Francisco Rangel
Russas, Junho de 2012

 
Francisco Rangel
Enviado por Francisco Rangel em 04/07/2012
Reeditado em 03/11/2013
Código do texto: T3759381
Classificação de conteúdo: seguro