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A menina que contava estrelas

Em todas as noites, tinha estrelas nos olhos de Marina. Tudo tinha amor, tudo tinha rima. Na verdade, não eram somente estrelas; toda manhã tinha mais sol, todo sol mais luz, toda tarde céu azul, toda praia um farol, todo corpo tinha alma e tudo na vida era calma.
Mas dos olhos dela, mesmo assim, despencavam águas.
Todos os dias, no colégio, ela via um amigo sofrer. Todos os dias, na rua de casa, as crianças a correr estavam atadas: pintadas de preto, os olhos vermelhos, as mãos imundas, os pés cheios de feridas encardidas.
Marina sofria por causa de cada olhar apagado, por cada rostinho mocho. Marina sofria a cada semáforo, a cada parada, a cada esquina. Ela franzia a testa ao ver uma geral ou outra, a 0 horas, no silêncio da amarga noite nas ruas da cidade. A menina tinha, mas não via a felicidade. E toda intensidade do mundo superficial, tornava-se paradoxal de mais para um coração ingênuo.
Apesar de tanto motivo, seu coração não sangrava mais por tal causa. Ele sangrava mais quando ela percebia que estava sozinha num mar de gente. Tantos seres humanos desumanos, cegos, surdos, mudos; tantas pessoas programadas na robótica sistêmica do cotidiano, tantos corações perdidos no desengano, no cale-se da rotina; tantos figurantes à sua volta, que ela já não sabia mais qual era seu papel na história.
Porém, quando o relógio batia as seis, a pequena mulher corria contra o pôr do sol, e a favor de um novo horizonte: À noite.
E logo que a noite surgia, começava a eterna brincadeira. Mazinha começava a contar as estrelas do céu e observava o luar. Quando não tinha estrelas, ela inventava buraquinhos na lua, quando não havia lua, ela brincava com as nuvens.
Até que um dia, Marina correu para ver a noite. Entretanto, não houve estrelas, não havia lua, não apareciam nuvens, não tinha luar. O céu caiu num breu total, emendando com a terra, com o mar. E a cidade? Alguma divindade encarregou-se de criar um minuto único, e apagou a cidade toda. Como mágica, a garota sentiu-se num escuro imenso, infinito, sem final nem começo.  E foi do escuro que brotou uma luz, e esta penetrou o coração da menina.
Se tudo no seu mundo criava rimas, agora tinha verso, estrofe, métrica...
Um sorriso sereno em seu rosto, nasceu para sempre. Agora ela não sofria por tudo que enxergava, porque todos que podiam vê-la, sorriam.
Então seguiu sua vida, sorrindo para o olhar alheio, e criando o riso dos outros...
Marry
Enviado por Marry em 08/08/2005
Código do texto: T41143
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Sobre a autora
Marry
Caçapava - São Paulo - Brasil
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Marry