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A Formiga Transcendente

UMA FORMIGA seguia sozinha por um carreirinho que ela própria não tinha construído e, para uma formiga, seguir sozinha por um caminho alheio é algo de incrível. A formiga olhava à sua volta, parava, olhava para trás e continuava seguindo em frente porque seguir em frente é destino de formiga. É destino de formiga, também, apanhar, no caminho, grãos que carregará às costas para um qualquer celeiro muito seu.
Incrivelmente, aquela formiga não apanhava grãos. Incrivelmente aquela formiga não tinha um celeiro seu. Só andava, com as suas patas minúsculas mal imprimindo sinais na areia compacta. E, coisa acima de todas incrível para uma formiga cujo destino é andar em frente, de repente a formiga parou.
Foi mesmo assim, parou, estacou abruptamente como se alguma mão lhe sustivesse o andar.
Durante uns segundos, ínfimos, a formiga deteve-se, parada sob o sol e, brusca e sincopadamente, levantou a cabeça, ergueu-a toda e com os olhos, olhos de formiga, notem bem, viu o sol, lá em cima, um pedaço de azul e duas ou três nuvens esfarrapadas e brancas. As patas dianteiras não conseguiram sustentar-se no solo, juntaram-se, um sorriso desenhou-se no rosto esclarecido da formiga... e nunca mais ela caminhou já que uma pata gigantesca, uma sola cravejada, acutilante, se abateu sobre ela e lhe esmagou a consciência precoce. E foi assim que a história não escreveu a odisseia mágica da formiga transcendente.

Regina Sardoeira
Enviado por Regina Sardoeira em 08/09/2005
Código do texto: T48664
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Sobre a autora
Regina Sardoeira
Portugal
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Regina Sardoeira