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Memória

CAMINHAVAM na areia envoltos na noite e sobre eles a lua cheia encantava o negrume, dissolvia o palor das estrelas, transformava em prata o mar sossegado, caminhavam sós, estrangeiros ao mundo subterrâneo por debaixo da areia, por dentro do mar, acima do céu, estrangeiros um ao outro, absortos em pensamentos que nenhum seria capaz de traduzir mesmo que quisesse, se quisesse, ou se pudesse, que nenhum seria capaz de confessar a si mesmo, se confessar fosse possível sem distorcer, sem negar. Caminhavam na areia, na noite, roubando o tempo e o espaço que jamais lhes pertenceriam, roubando a luz da lua e a calma do mar, penetrando a solidão e o imenso vazio. Caminhavam, figuras acidentalmente reunidas pelo acaso, esse grande mestre, filho do arbítrio que nenhum poder jamais susteve. Mas o acaso tinha uma força mágica, um poder quase de destinação fatalista e ei-los unidos pelas tenazes violentas de não sei que deus benéfico ou terrível. Ah, esse deus ambíguo, demoníaco e angélico, branco como o luar e pejado de sombras que os arrasta, que os leva rumo ao mar, negro, argênteo, rumo à fatalidade que engole, que subverte todo o caminhar a dois, que quer fazer de dois, um, mesmo conhecendo a impossibilidade absoluta de uma tal fusão, a ilusão mefítica de tal simbiose. E o deus segreda, pede-lhe a mão, dissolve a distância, faz com que o calor se transmita pelas epidermes, o sangue reflua e o frio se vá, peço-te a mão, e a mão chegou, saiu do calor onde se albergava, recolhida e crispada, e envolveu a dela que se lhe entregou. Numa mágica, que de mágica recebe apenas o nome, filtrada pelo luar, que de quente e real tem apenas a ilusão dos sentidos, numa química misteriosa, o calor da mão espalhou-se e um fluido energético empurrou o corpo contra o corpo num desespero de penetração, numa ânsia desmedida em que nenhum deus segredou nada ao ouvido de ninguém. O deus partira e só a força hercúlea de cada poro da pele, de cada célula, comandava o fluxo e o refluxo das marés vivas, das fomes profundas encasteladas no tempo, amontoadas no oculto, nas profundezas do corpo, na bruma do inconsciente tornado consciente, mas permanecendo submerso, transcendente. O deus retirou-se confuso, derrotado, impotente, ante a fome subitamente desencadeada, ante o desespero das naturezas acorrentadas, finalmente libertas na noite, duas forças até aqui estranhas, magicamente apertadas no torno de um desejo sem nome, ódio, raiva sangrenta, ânsia de devorar, de apanhar para si. Os corpos encontraram-se, cindiram-se através de armaduras ásperas e quiseram morder-se, ferir-se, como se cada um deles fosse o culpado da carência alheia, da revolta alheia, tornados íntimos, pares, iguais na fome.
E aos poucos a consciência regressou, pendurada nos raios da lua, os corpos abateram-se, lassos, sobre a areia e o deus saiu das ondas, presença branca, e segredou era só a mão para que tomaste o resto, não tinhas o direito, não era a ti que ele queria... Eu sei, oh eu sei, esta fome não é de mim, mas da vida que magicamente assumi nesta noite, não é a mim que ele quer mas ao mundo que se lhe furta, atrás de paredes que ele não ousa romper. Eu sei, oh eu sei, que importo eu, ponto de passagem, estrela mesquinha na via láctea do ser, transição para o mundo largo ou estreito, para o mundo que cada ser tem que conquistar por si próprio.
Mas olha, ei-lo ali, turvado, confuso, sedento, revolvendo vestígios de raiva, querendo e não querendo... que custa o afago, o cetim dos dedos na face que a lua embranquece? Sim, tens razão. E a mão dela partiu e encostou-se à epiderme doce, os fantasmas diluíram-se no branco e a fome, insaciável, mordente, abateu-se de novo, o sangue misturou-se ao gosto dos hálitos, o corpo procurou romper a armadura, a pele quis encontrar a pele para que nenhuma distância ousasse quebrar a mística fusão.
Milagre, gritou o deus, milagre, obra de humanos sob o luar, obra da gente face ao negrume.
Sim, milagre, esta hora permanecerá miraculosa, esta dádiva de solidão acrescida, este sonho feito de luar e noite, de solidão iludida, de engano turvado.
E, quando partiram ao encontro do mundo, levavam nos olhos o brilho do milagre, levavam nas mãos a memória do toque e na boca o gosto do sangue.
Nunca mais ficaram sós. E a música foi escorrendo, penetrando de um para o outro, foi-se avolumando a descoberta e os dias ganharam no seu azul, na brancura argêntea das suas noites o encanto mítico de paraísos encontrados.
Amaram-se. E a palavra, antiga como o primeiro homem, mágica como raios de luz em catarata de sombra, a palavra surgiu, impôs-se, cresceu. E a palavra, a partir da hora em que foi dita não deixou que mais nenhuma fizesse sentido. E a palavra, tardia, esquecida, banida, a palavra, temível, lançou as suas redes sobre eles, envolveu-os numa mágica tida como impossível.
Horas de ternura, de afagos, de suaves colóquios à luz da lua, pelas cidades estranhas, tornadas símbolo, cidades que jamais serão o que eram, céus e arco-íris que jamais terão as cores de outrora. Horas de aperto de mão, de caminhadas silenciosas por ruas, cujas esquinas ganhavam a dimensão do sonho em que qualquer palavra era injúria à suave comunicação dos corpos e dos dedos.

E uma saudade antecipada, o espinho cruel do despertar abrupto, adivinhado na bruma de qualquer manhã, de qualquer crepúsculo, uma saudade imensa, sem lenitivo, crescia da sombra.
Levantava-se o deus, erguia-se o vingador, surgia o espectro sangrento, violador da ternura, corruptor do afago, cada dia, cada hora, devorava o encanto, tragava-o no vórtice da realidade cinzenta sem laivos de arco-íris. E, numa ironia mistificadora, num dilaceramento de crueldade, ignorada a noite que os juntou, atirou-os, divididos, para mundos estranhos. Deus, tu, deus maligno e benfazejo, viajante das entranhas da terra, traiçoeiro, escondendo as farpas entre os raios da lua, tu, deus, mostra o teu desígnio, fado, destino, maldição. Que ondas de escória lançaste entre as fomes vivas dos que outrora uniste?
Passaram-se séculos, séculos, séculos. Eternidades incontáveis separam o que uniste, hinos loucos, báquicos, pancadas estertorosas são a voz do silêncio na memória impotente, na imaginação incerta.
Ah, caos, abismo, palavra, sons de trombeta que o destino amarrou, torrente dionisíaca que Apolo esculpiu, luar, areia escorrendo pelos poros, cintilação inútil... mar!
O ser jaz, exangue, ébrio, o ser arrasta-se pelas esquinas cuja fuligem se adensa, cujo pó se avoluma... o ser está cindido, louco, vertiginosamente louco... só, só com a memória, só no desconcerto que nenhuma imaginação pode suprir...
Regina Sardoeira
Enviado por Regina Sardoeira em 08/09/2005
Código do texto: T48698
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Sobre a autora
Regina Sardoeira
Portugal
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Regina Sardoeira