Menininha

A criança tem entre as mãos o velho relógio; manipula a máquina prateada sem compreender a complexidade do objeto. Com uma pequenina aperta com firmeza o relógio e os mínimos dedos se avermelham, com a outra unindo dois dos dedos ainda brancos explora as engrenagens. Produz entre pausas longas o rangido seco das rodas dentadas e canta baixinho.

É fraca a voz da menininha; a cada palavra há a necessidade doída de tomar fôlego; canta como quem sufoca. 'Mãezinha'.

Torcendo a corda 'abraçada', vendo as pontas brancas dos dedos se avermelhar 'com papai' e o amarelo crescente debaixo das unhas 'nesse manto' até ouvir o estalo seco da engrenagem e o ruído vibrante metálico da mola que salta 'de nuvem'. Vê o relógio sem vida e força com os dedos o ponteiro travado no sentido oposto ao do tempo. 'no céu' E inconscientemente retrocede enquanto repete as palavras do moço de vestido preto, sorrindo ingênua na memória como houvesse alguma intenção no movimento das setas. Mas não, é só movimento preenchendo o espaço.

Dorme menininha.

Dorme.