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Lindonéia - Retrato em Branco e Preto(cont.)

           
                      26.Mariquita


Rio Vermelho, flores, fevereiro, Tiago do Gandhy. Bia cumprindo promessa, balaio, o povo, carroça, feijoada, pescadores, roupa branca e um forte desejo, Bia de um lado, Tiago no bloco, o retrato preto e branco de Papai rodando na minha cabeça, mamãe e o terço, Jesus e o seu joelho pingando sangue, Iemanjá e o vestido azul cor de céu. Jesus donzelo, filho de donzela, pai do Cristianismo. Bia chorando no canto.


                      27. férias


O ônibus da Viazul e o seu pára-pára infinito, SSA x Cachoeira. A feira, todas as cores no tabuleiro, todos os nomes, sabores, jaca, umbu, siriguela, caju, abacaxi.Tudo branco, tudo nuvem, beiju, farinha, carimã, tapioca. A carne seca, chouriço de porco, fumeiro.Água na boca, esse gosto de várias mãos.


                      28. Espelho


Abaeté, praia de Amaralina. Ficar parada diante do espelho imaginando os meus temidos oitenta anos, o terror que se desenharia, o efeito do tempo. As dunas de itapoã, a surra do vento no meu rosto e a passagem gradacelerada dos dias. O espelho, a piscina da Fonte Nova, a fonte.


                      29. Feira da Sete Portas


Mamãe todo sábado, mamãe e sua agonia, mamãe e o sarapatel de Papai, a minha quiabada de domingo. Mamãe descendo o Funil e me levando de tiracolo. O cenário talvez um dos mais representativos da cidade do salvador. Perde-se nos becos, nas cores, no cheiro de carne-de-sertão, na farinha de Nazaré. O movimento intenso toda sexta, todo sábado. Quiabo, maxixe, jiló... A confusão de sons, sabores, odores.


                      30. Farrapo


Quando a mulher de Pedro chegou fiquei um farrapo, putinha de ponta de esquina, Pedro tinha uma dona. Prometeu-me casamento, felicidade, amor. Desfazedora de lar. Todos na escola me olhavam com um misto de pena e de repreensão. ‘Lindonéia toma o marido das outras, Lindonéia, Lindonéia...’ O rancor, as lágrimas jorravam diante do espelho. Lindonéia, um amontoado de carne. Pedro do Banco do Brasil das Mercês, o Ético, nunca mais eu vi.

                      31. Sapatinho


O sapatinho vermelho com um lacinho branco, uma tiara de flores, o palhaço com perna de pau, megafone. Baixa dos Sapateiros, o balaio tropicalista. Mercado de Santa Bárbara, cine Jandaia, Barroquinha.


                      32. Reviravolta


Beco se m saída, loucura, estou grávida, penso em meu pai, na minha vida, no aborto, em sumir, no assumir, toda essa aflição, a agonia explodindo no meu peito, a fúria. O prazer de ter outra vida, gerar outro ser, ser mãe, proteger o meu filhinho. Penso no mingau de flor de milho, no chá de erva cidreira.
O resultado do vestibular, trancar o semestre, atrasar a vida, dupla jornada. Amamentar, ninar, enxoval. Fruto de um estupro, uma violência. Chá de bebê. Um nome. Vou abortar, botar pra fora. Filho de mãe solteira, de pai cachorro, progenitor.

                       33.Óleo diesel


Pensando em vidas, olhando a noite chegar, os pássaros despreocupados irem dormir. O cheiro de café já domina a casa e o cuscuz de milho preenche toda a cozinha com o seu cheiro. Mamãe e a Ave Maria.
Titio chega com o macacão com forte cheiro de óleo diesel. Enjôo seguido de vômito. O olhar de mamãe indaga. Vai até o quarto, indaga, a Santa inquisição. Revista, aperta o meu ventre, descobre a cinta elástica, mostra-me o pacote de modess fechado. Grávida.




                       34.Honra

Casar, limpar a honra. Titio, o moralista, orienta. Derrocada. Tiago chamado, Papai no centro, Titio na mesa, mamãe aflita. ‘Sim, casarei’. Antes de o bucho sair, da vergonha aparecer, dos vizinhos comentarem, o altar da Igreja de Santana espera a minha chegada.

                      35. Túnel Américo Simas


O vai e vir dos carros, a pouca iluminação, o cheiro de rim diluído, com todos os seus cálculos renais, ratos. Cidade Alta, Cidade baixa. O diário da manhã, um dia qualquer, daqueles que você fica com um sorrisinho de canto de boca e uma cara de já vai tarde.


Deijair Miranda
Enviado por Deijair Miranda em 24/09/2005
Reeditado em 24/09/2005
Código do texto: T53397
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Sobre o autor
Deijair Miranda
Pojuca - Bahia - Brasil, 41 anos
116 textos (5514 leituras)
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