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AURORA


                                                           
Da solidão do útero fez-se a escuridão profunda do oceano e os movimentos tornam-se lentos. O respirar apenas pelo umbilical leva o ser a se tornar o mais esquecido de todos os seres in-vitro. Lá fora, poucos o querem e muitos não o desejam, por representar mais um peso na grande explosão demográfica de mundo.

O oxigênio cá dentro é mais denso, uno, pois se transforma numa cápsula pequena onde cabe apenas um ser vivente. Quando muito, dois ou três que, amanhã talvez, estejam mortos ao explodi-la.

Ah! Que mundo estranho dentro de um cubículo tão ínfimo que não se aproxima nem a uma bola de futebol.

Que sons são esses? Não se consegue comunicar o que se está ouvindo. O círculo em sua volta permanece por um longo tempo fechado, dificultando os movimentos largos, espaçados. Mas... escuta-se tudo em silêncio, tentando decifrar todos os simbolismos de cá fora, sem sucesso.

Dia após dia, é sempre frustrante por não ver a luz, nem mesmo conhece-la como é. As formas, as cores, os cheiros, as superfícies. Tudo é expectativa do nada e do todo.

Porque ficar tão agitado, se nada vê lá fora, apenas artérias, sangue, líquor e transparências, cá dentro? Não há entendimento pelo que se passa. Só o vazio.

À medida que o tempo cá fora passa, dentro, é como se fosse a eternidade. E a proximidade de se sair do casulo promove uma ansiedade no ser que se agita desordenadamente.
A cabeça primeiro, por que?
Porque não os pés que farão o caminho?
E porque não os braços para proporcionar-lhe um vôo mais alto?
Tudo é expectativa no momento.

Tudo indica que é hora de zarpar da cápsula que lhe guardou por tanto tempo e ter a firmeza para enfrentar o lado de lá. Há rumores incompreensíveis, clarões com intensidade variada. Há um túnel por onde, com sofreguidão é impulsionado e por quem? Sabe lá!
Nessa caminhada, o oxigênio que era somente seu, parece falhar, percorrendo uma imensidão de túnel, até...

O clarão torna-se mais intenso e contínuo e, os rumores imperceptíveis trazem-lhe confusões auditivas. Não se consegue divisar em qual mundo está, se o seu casulo que ficou para trás ou algo totalmente estranho, desconhecido.

Sente agora que há uma massa de oxigênio diferente daquele tão familiar, pressionando suas narinas e boca, como se quisesse arrebentar seus pulmões. Grita, e grita forte.
É seu primeiro gesto, ou melhor, seu grito - gesto num espaço desconhecido, que agora chega para integrar.

Nada se assemelha aquela agitação de vozes, gritos, movimentos, sombras, silhuetas. Do círculo que veio, apenas a lembrança suave, prazerosa e calma. Como se acostumar com tanta luz a sua volta?   Com tantas vozes em uníssono!

Vontade grande de voltar...
sonia barbosa
Enviado por sonia barbosa em 16/10/2005
Código do texto: T60057
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Sobre a autora
sonia barbosa
Recife - Pernambuco - Brasil
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sonia barbosa