Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

Um tal de Novidade

O ano entrou feito o foguete subindo ao espaço. Tava todo mundo assistindo sua passagem. Um foguete feito ano passando, um ano feito foguete decolando.Era um tal de Novidade.
E por onde passasse Novidade deixava no ar um ar de queixo caído, pois trazia o que ninguém jamais tinha visto: O próprio em pessoa e à balde na sacola.
Como todo foguete que se preze, Novidade tomou medidas preventivas pra que jamais em seu trajeto alguma coisa falhasse ou saísse fora do script, mas nem Novidade podia dominar o Imprevisível, um meteoro grande e mal humorado, que vive rondando o espaço, e vira e mexe acerta um pelo caminho.
E nesse percurso louco e cheio de objetos povoando o espaço, o papel da simpática lata voadora era dentre outras, desviar de ÓVNIS e meteoros, tipo “O Imprevisível”, o terror do espaço, assim como era bem conhecido pelos lados de Plutão. E assim o tempo foi passando...
Entrou Janeiro rapidinho e num piscar saiu de fininho, vem fevereiro de mansinho, no sapatinho e Opa! Olha Novidade riscando o céu aí, corria todo mundo pra ver. Era alegria a torto e a direito.
Vinha março, já no casco Novidade carregava arranhões e alguns amassos, nada demais, uma batidinha aqui, outra ali e novidade entrava Abril a mil.
Nesse mundo de “meu Deus” o foguete colorido carregava até pedidos de paz do pessoal daqui de baixo e de lá de cima também, Novidade era também democracia e sensibilidade em pessoa, quer dizer, em Foguete.
E vinha Maio, nossa! E noiva a dar com pau esperando seu presente, um vestido branco, longo, importado, brilhante, resplandecente feito à luz da cauda de um cometa. E ninguém melhor que um foguete pra saber dessas coisas...
E olha Junho todo serelepe, Novidade lá no céu dando drible em trovão e tempestade, emendava como flecha rapidinho, num cantinho mais alegre que havia no sertão, era luz de lampião ou fogueira de São João. Acenava pro céu o povaréu quando o foguete mais alegre riscava noite adentro.
Julho metido a Doutor em paraíso de férias aguardava o Sr. Novidade e sua turma de Ets, nem de burocracia do Serrado o danado escapava, era hora de prestar conta das noitadas e vôos rasantes a clientela interessada. Era um povo de gravata, chato que dá dó resmungava Novidade ajeitando o nó da gravata e tirando o pó da poeira das ruas sem asfalto. Onde estava seu doutor há essa hora?
Vem agosto, tira gosto, com bom gosto receber o Novidade, o metido foguete colorido, abraçava as honrarias e dispensava os tapinhas nas costas. Gostava mesmo era de deixar sorrisos e euforia, se gabava todo dia de incendiar no bom sentido por onde passava.
Veio Setembro com paradinha feito Romário batendo pênalti, ninguém reclamava tampouco Novidade que gostava era de bola na rede e goleiro sentado no chão não saindo em foto de jornal.
Se pudesse fim de semana não trabalhava, sentava na arquibancada pra aplaudir o balé inventado por inglês. Inglês inventando essas coisas? Não aceitava o velho voador, de tão brasileiríssimo que era. Já comprovava o seu casco, verde, amarelo, com faixas azuis e brancas. Quase uma bandeira tupiniquim voando por aí.
Vem Outubro, e Novidade preparava o coração se fosse ano de Eleição. Era briga lá em cima, o pessoal daqui pedindo uma forcinha, por menor que fosse, desde que lá na porta de São Pedro ele batesse e pedisse dois favores;
- Não deixa o povo sofrer! Se não de Novidade eu viro um ferro-velho, esquecido, abandonado.
- Permita mais uma vez que ninguém desacredite dessa terra maravilhosa, e por mais que haja água amargosa, sacia a sede e fome de seus filhos.
Com sensação de serviço executado, ajeitava suas tralhas pra Novembro receber, contagem regressiva, aguardava ansioso, era em tese sentimento, um ano quase todo foi embora, mas ainda falta um menino, uma menina pra nascer. Pedia todo dia, era quase ladainha... ó Meu Pai guarda órfão, o sertanejo, o pobre, o fraco, o time do flamengo...não desampare o abatido nessa terra de ninguém.
Mal saía pela porta do céu, rabiscando os quatro cantos com sua enorme labareda, esperava Novidade ficar velho e deixar um primo seu, assumir o seu papel.
Dezembro chegou, Novidade tinha deixado alguns recados:
- Não desistam de seus sonhos, se ele não aconteceu. Sonhe hoje, amanhã, depois, nunca deixe de esperar, trabalhe sem cessar que Novidade outro dia vai voltar.
O pedido era que deixasse, que o tempo passasse, e numa noite estrelada de verão, olhasse para o céu. Era um ano terminando e um novo começando, enfim, um novo dia iniciando... Era hora de ser feliz!
Tiago Alves
Enviado por Tiago Alves em 03/11/2005
Código do texto: T66911
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
Tiago Alves
Macaé - Rio de Janeiro - Brasil, 41 anos
15 textos (1292 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 06/12/16 12:20)
Tiago Alves