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                               Os Grãos de Areia

 

“ Todos os dias. As horas são sempre as mesmas, as horas do relógio. Não havia ainda o horário de verão e se houvesse nada mudaria. Eles não têm relógio, nem ele nem ela e não há nenhum relógio público para ser consultado.Seguem as horas naturais, medidas artificialmente, pelo apito do trem na curva, pela sirene da Cerâmica Velha anunciando o fim do trabalho do dia. Dos dias. Eles descem a Rua Direita, silenciosos. Ela está sempre à frente. Os passos são vagarosos e nunca olha para trás, mas, de vez em quando, diminui mais ainda a velocidade do seu andar. Então seus corpos se chocam por um momento e ela confirma para seu coração triste que ele está ali. Param juntos, algumas vezes. O movimento é sincronizado e ninguém sabe de onde vem a ordem.Meia volta, volver. Descansar. Lado a lado, sem se tocarem, eles esperam.Segundos, minutos, o tempo suficiente para que saia alguém de dentro da casa, escolhida pelo mistério, com as mãos cheias. Pães, biscoitos, doces,bolos, frutas, qualquer coisa. Qualquer coisa velha.Roupas. Calçados. Bugigangas. Uma sombrinha furada. Uma panela sem cabo. Um balde sem alça. Uma cortina rasgada. É sempre ela quem pega o que é doado. Quem agradece. Em nome de Deus. Ele só olha, entristecido. Como se a vergonha o consumisse por dentro. A chuva cai e molha seus corpos magros, o sol seca suas roupas e suas lágrimas, o vento abre sulcos em seus corpos envelhecidos. Ninguém se lembra de como eles eram antes. Ninguém sabe de onde vieram. Nem desconfiam para onde vão.”  

Este texto, publicado no Caderno da Academia de Letras de Lavras MG faz parte de meu livro Um rio no fundo da casa, uma casa na frente do rio e antecede pequenas histórias mostrando a infelicidade na vida das pessoas, suas esperanças perdidas e suas culpas. O elo de ligação será formado pelos dois mendigos e suas paradas em cada porta, desencadeando ou presenciando histórias que não se ordenam cronologicamente nem espacialmente. Chuva. Sol. Vento. As estações do ano. Mas sempre serão histórias de amor. De qualquer amor. Lembranças transformadas de minha vida. Eles mesmo, os mendigos, foram inspirador nas figuras de Dona Rosa e seu Virgulino, que durante muitos anos andaram pelas ruas de Arantina.  

Maria Olimpia Alves de Melo
Enviado por Maria Olimpia Alves de Melo em 02/10/2007
Reeditado em 07/11/2007
Código do texto: T677787
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Maria Olimpia Alves de Melo
Lavras - Minas Gerais - Brasil
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Maria Olimpia Alves de Melo