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Até que a morte as separe

" Je ne veux pas mourir! J'ai peur!
Il y a la joie que est plus forte! "
Paul Claudel

Caminho na avenida comum à dos vencedores. No entanto, o que vejo são seus rostos.
Desconfio da minha inteligência, já que me detenho na contra-mão dos que riem, mas meus olhos só se fixam nos entusiastas da dor, que se entregam à melancolia que apanham no ar, como se apanha uma borboleta negra ou um pouco rubra em seu vôo vagaroso.

Mas a tristeza também tem vida própria e, alimentada com veneração, se expande de modo que, ao atingir tamanho exato de dor inconteste, não se precipita em lágrimas, mas se condensa na mais sólida das matérias e traz a um corpo humano de matéria tão coloidal e indefinida peso que este - arrependidamente - percebe o perigo de não suportar.

Depois sucede que, na busca urgente por se salvarem da dor que agora se faz conhecida mais do que nome, se lançam às pérolas ditas da alegria: às danças, pores-de-sol, palavras que marcham e sons que flutuam; coisinhas que guardam muita gentileza em doar maçãs maduras a famintos e certas asas aos espirítos dantes embrutecidos na desilusão.
Equívoco seria imaginar que estas coisas que reclamam toda a admiração do Universo também não se vêem, de repente, encantadas pelo que espreitam de triste nos Homens.

Ocorre que, neste desvario da paixão pelos humanos, até o Sol, que era feliz, deixa escorrer nuances de alaranjado, que se passam por vermelhas e finge sangrar de saudade ao se despedir na exata hora de viajar ao Oriente e mudar de filhos. E vai embora devagar, se arrastando, imitando os homens que sofrem.

As danças mesmo - repare nas danças! - as danças dão mil passos em dois pés. E elas agüentam mais de dois passos? Não afirmam senão a tristeza que há nos pés em descompasso e, quando lentas, pisam com a lentidão que há na tortura, desprezando tudo o que não dança compassadamente a fim de torná-lo triste e irreversível.

Os livros riem da Felicidade e já sabem de cor este mito impreciso e banal, apesar de verossímil quando materializada em pódios que sustentam pernas fortes e louros que adornam mentes mortas.
O mito da Felicidade acaba em escravidão perpétua - me contaram os livros felizes para sempre.
Os livros, se abertos, são as feridas abertas dos homens que recusam ópio e morfina; e cada farfalhar de página virada impede a coagulação redentora.

Quem permitiu à alegria conhecer a tristeza e derramar por ela alguns sonhos não há de morrer. Nem de dor. Porque mesmo na euforia a dor reside intacta; é um parasita que nunca faz padecer o hospedeiro, porque dele se nutre. E a alegria, muito entregue e desastrada, também passa a depender da tristeza, que instalou em seu corpo lânguido e imaculado um verme asqueroso e negro. Na ânsia de desprender a indesejável presença do verme feio do desconsolo, o corpo da alegria começa a se movimentar e, para expulsá-lo, começa a dançar, já que se trata da alegria...
Um cão se debate para se livrar de sua coleira triste e poderia dançar, não fosse um cão.

E tudo fica bonito tão alegre de triste, como agrada a Deus.


Fernanda Lobo
Enviado por Fernanda Lobo em 02/10/2007
Reeditado em 28/03/2008
Código do texto: T677839

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Sobre a autora
Fernanda Lobo
São Paulo - São Paulo - Brasil
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Fernanda Lobo