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Drummond, sua Vaca e Eu

Desde a semana passada, que a “Cow Parade” invadiu o Rio de Janeiro. Moda vinda de Bruxelas, aportou no Brasil e agora, na cena carioca, está dando o que falar. Dessas lindas vaquinhas, a que mais me chamou a atenção, foi a “vaquinha de Drummond”, estátua que jaz sentadinha perto da dele num banco do calçadão de Copacabana e, com o ar muito intelectual, lê um livro.
Diante da cena insólita, resolvi, sentar junto ao Drummond e ‘levar um papo’ fictício, com ele.
_ Desculpe-me, caro Drummond, mas preciso ‘levar um papo’ consigo.
Olhou-me, um tanto enfastiado, virou os olhos pra cima e num suspiro, escutei:
_ “No meio do caminho, tinha uma pedra...” (1)
Retruquei:
_ Não vou levar muito tempo, amigo, mas como sua leitora assídua, precisava te perguntar: que faz uma vaca aqui junto contigo?
_ “Salve , reino animal (...) Para trazer ao feno, o senso da escultura, concentro-me: sou boi.” (2)
_ O que quer dizer, exatamente, meu poeta amigo?
_ “O mundo não vale o mundo, meu bem. (...) Que diz a boca do mundo? Meu bem, o mundo é fechado, se não for antes vazio. O mundo é talvez: e é só. “ (3)
_ Tá bem, meu amigo, mas vou te falar o que anda dizendo o mundo (ou pelo menos os cariocas) depois que te flagraram junto a uma vaca. Estão dizendo que tu andas meio “estranho”, sabe? O que estás querendo mostrar com essa atitude um tanto, digamos, insólita?
_ “Que pode uma criatura senão, entre criaturas, amar? (...) Que pode, o ser amoroso, sozinho, em rotação universal, senão rodar também, e amar? Amar o que o mar traz a praia.” (4)
_ Ah!, já entendi, a questão então, está ligada ao coração e a alma.
_ “As almas, não, as almas vão pairando e, esquecendo a lição que já se esquiva, tornam amor humor, e vago e brando, o que é de natureza corrosiva”.(5)
_ Ah! Então é paixão...mas sempre te vi como um anjo!
_ “Que quer o anjo? Chamá-la. Que quer a alma? Perder-se. (...) Que quer a paixão? Detê-lo. Que quer o peito? Fechar-se.” (6)
_ Claro! Afinal tu és um homem como outro qualquer....
_ “Mas que coisa é o homem, que há sob o nome: uma geografia? Um ser metafísico? Uma fábula sem signo que a desmonte?” (7)
_ Escuta, Carlos (se assim o permites que eu te chame), nunca te vi assim antes, te apaixonar por uma vaca? O que te fez ficar tão aceso e tão liberal? Para mim tu eras um “eterno”.
_ “O que é eterno, Yayá Lindinha?” (8)
_ Essa eu sei: “Ingrato! É o amor que te tenho!” Mas, ainda acho que tem algo que não queres me contar. Estou surpresa com este teu amor, sem eira nem beira.

Sorriu.

_”Cantiga de amor sem eira nem beira, vira o mundo de cabeça para baixo, suspende a saia das mulheres, tira os óculos dos homens, é o amor, seja como for, é o amor. (...) Essa ferida, meu bem, às vezes não sara nunca, às vezes sara amanhã.” (9)
_ Ah! Isso eu bem sei como é que é. Sabes que ando apaixonada por um alguém que só tem olhos pra outro alguém...
_ “João amava Tereza que amava Raimundo, que amava Maria, que amava Joaquim, que amava Lili que não amava ninguém.” (10)
_ Pois é, nobre poeta, amar, as vezes, é um desencontro....
_ “Os desiludidos do amor estão desfechando tiros no peito (...) e cobertos de terra perderão o brilho enquanto as amadas dançarão um samba bravo, violento, sobre a tumba deles. “ (11)
_ Está bem. Mas, não vamos desviar o assunto: o tema aqui é você e a vaca. Confessa: estás tendo um “affair” com ela?
_ “Não cantarei amores que não tenho e, quando, tive, nunca celebrei,. Não cantarei o riso que não rira e que, se risse, ofertaria a pobre.” (12)
_ Sim, mas não é o que dizem por aí... eles se referem a um certo passado teu...
_ “É sempre no passado aquele orgasmo, é sempre no presente aquele duplo, é sempre no futuro aquele pânico.” (13)
_ rsss...estou brincando, Carlos, não precisa ficar apreensivo. Olha, mas a vaquinha aí ao lado, me parece estar bem apaixonada. O tempo parece que não passa para ti. Como te sentes?
- “Sinto que o tempo sobre mim abate sua mão pesada. Rugas, dentes, calva... Uma aceitação maior de tudo, e o medo de novas descobertas. (...) Serei sempre louco? Sempre mentiroso? Acreditarei em mitos? Zombarei do mundo?” (14)
_ Você é um poeta, Carlos, e como todos, um tanto romanticamente louco; assim espero e o povo carioca também.
_ “ Esta cidade do Rio! Tenho tanta palavra meiga, conheço vozes de bichos, sei os beijos mais violentos , viajei, briguei, aprendi. (...) Mas se tento comunicar-me, o que há é apenas a noite e uma espantosa solidão.” (15)
_ Ora, Carlos, se precisares de um ombro amigo, conte comigo. Sabes que te tenho uma admiração em especial? Ainda te vejo como um anjo, o anjo da poesia.
_ “Quando eu nasci, um anjo torto desses que vivem na sombra disse: Vai, Carlos! Ser gauche na vida. (...) Eu devia te dizer mas essa lua, mas esse conhaque botam a gente comovido como o diabo.” (16)
_ Carlos, eu posso entender este teu coração de poeta, mas dize-me uma coisa, por que se engraçou dessa vaca, mesmo ela sendo uma intelectual?
_ “Sorrimos para as mulheres bojudas que passam como cargueiros adernando, sorrimos sem interesse, porque a prenhez as circunda...” (17)
- Ah, entendi. É como se ela fosse uma mulher prenhe, a mãe de leite. É o símbolo materno. Escuta, mas lá na frente, no posto três, tem uma que está com roupas muito justas, saltos altos vermelhos, muito pintada, a quem os transeuntes apelidaram de “Bebel”. Que tu dirias se aqui ela viesse pra te conhecer?
_ “Bom-dia: eu dizia à moça que de longe me sorria, (...) Bom-dia sempre: se acaso a resposta vier fria ou tarde vier, contudo esperarei o bom-dia.”(18)
_ Tu és um perfeito cavalheiro, nobre poeta. O que te fez vir aqui para o Rio e abandonar Itabira?
_ “Casas entre bananeiras, mulheres entre laranjeiras, pomar, amor, cantar. (...) Eta vida besta, meu Deus!” (19)
_ Caro poeta, tenho que despedir-me agora. Obrigada pelo ‘dedo de prosa’ e saiba que embora o tempo entre nós esteja perdido, te amarei sempre, de paixão.
_ “Amar o perdido deixa confundido este coração. (...) Mas, as coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão.” (20)

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Agradeço ao poeta maior, CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE, pela inspiração nesta prosa poética.
POESIAS DE RERERÊNCIA:
1. “No meio do Caminho”
2. “Os Animais do Presépio”
3.“Cantiga de Enganar”
4. “Amar”
5. “Entre o Ser e as Coisas”
6 “O Arco”
7. “Especulações em torno da Palavra Homem”
8 “Eterno”
9. “O Amor bate na Aorta”
10. “Quadrilha”
11. “Necrológio dos Desiludidos do Amor”
12.. “Nudez”
13..“O Enterrado Vivo”
14. “Versos à Boca da Noite”
15. “A Bruxa”
16. “Poema de Sete faces”
17.“Ciclo”
18. “Canção para Álbum de Moça”
19. “Cidadezinha Qualquer”
20.“Memória”


Rio, out/07
Marisa Queiroz
Enviado por Marisa Queiroz em 05/10/2007
Reeditado em 21/12/2008
Código do texto: T681899

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Marisa Queiroz
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