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A poetisa e o in-sensível

A noite finda no fim do domingo do último fim de semana. Pra mim, pelo menos. Sentado à porta de casa, absorto, livro na mão, tentando me desligar de mim e de toda a poluição sonora da rua.
 
Ligo o meu som (se tenho que ouvir músicas, que sejam pelo menos as que me agradem). E sintonizei numa rádio que apresentava um especial de Dire Straits. Nada mau! Alguém, dessa mesma rádio, cita um poema da Cecília em que ela nos convida a olhar as belezas que passam despercebidas todos os dias à nossa janela. Como não me concentrava mesmo no livro, resolvi experimentar. E passei a observar as pessoas
(o povo feio lá de baixo, como costumo chamá-los).

A rua estava bem movimentada, vários personagens ocultos de suas histórias de vida pouco ou nada interessantes. Cambaleantes bêbados, equilibristas de si mesmos, a percorrerem o fio da rua, tristes cabisbaixos a tropeçar nos meio-fios. Mais se parecem com zumbis! E são muitos indos e vindos não sei de onde. Desconfio que nem eles mesmos sabem. Não naquele momento. Logo abaixo uns “dez ocupados” em não fazer nada (a não ser soltar uma fumaça mal cheirosa, a inflamar os olhos e lamentar o término do final de semana em que nada de especial aconteceu em suas vidas. Como se tivessem mesmo o que fazer na segunda, ou sei lá quantas chances ainda terão). Belíssimos casais de feios a passear. Famílias que retornam aos seus lares sempre com as mãos cheias de sacolas (ô povo que gosta de sacolas).

Enquanto uns voltam, algumas moças fortes, de cheiro forte, oriundo de suas penteadeiras, vão. "Vãs" à luta. Essas mesmas diárias que se dis"puta". E são! Cheias de amor pra dar de seu coração di"lata", sob os olhos desconfiados dos crentes que voltam de seus cultos de Bíblia na mão e dedos a apontar (estes, pelo menos crêem num mundo melhor, ainda que fora deste). São pessoas, fulanos e cicranos, Joãos e Marias e toda sorte de nomes, que se “diz graça”.

A Cecília teria encontrado poesia até nos gatos que fazem barulho no telhado ou no cachorro fazendo suas necessidades no carro do vizinho,
mas eu não! Definitivamente, ou não tenho metade da sua sensibilidade, ou ela nunca passou por minha rua, porque em nada vejo beleza! Nem em mim! Começo a achar que o feio sou eu! Me ocupando da vida alheia... Que coisa feia! Voltei a ler o livro!

Espero que meu irmão, Valdo Martins, me perdoe por ter publicado e titulado, sem pedir sua permissão, esse pensamento maravilhoso, que, por sinal, muito me inveja. Espero que os comentários, se vocês tiverem a bondade de comentar, o encorajem a continuar escrevendo e ele possa abrir, ele mesmo, sua escrivaninha à plêiade. Achei de uma beleza... A poesia de Cecília Meirelles a que ele se refere é, conforme ele mesmo afirma, "A arte de ser feliz".
Arpejo
Enviado por Arpejo em 08/10/2007
Reeditado em 14/11/2007
Código do texto: T686371

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Sobre o autor
Arpejo
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 39 anos
83 textos (3514 leituras)
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