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Globo de Cristal

Um globo de cristal entre os meus dedos. Delicado e frágil, sussurro-lhe que não tenha medo. Ela já está para chegar e eu vou explicar tudo. E, se quiser, um pouco mais. Só não vou mentir. Já menti muito para mim mesmo e não gostei nem um pouco. É uma porcaria, mentir, meu globo de cristal — perco o controle! Quase te esmaguei, agora, globo de cristal — pois sabe que posso fazê-lo num piscar de olhos, sem o emprego de muita força. Mas não o farei, estou só agitando-o. É meu nervosismo. Prometo que não faço mais.

Queria tanto voltar atrás, voltar no tempo, se fosse tão simples assim. Voltar e não cometer os erros que cometi. Talvez assim pudesse viver mais feliz, eu creio? No mundo, só errariam os outros, não eu. Isso poderia me deixar um tanto frustrado, globo de cristal — os outros teriam que errar menos, também. Não, não adianta. Que uso teria uma discussão como essa, já que não posso voltar atrás? O fato é que errei e tenho que consertar. Não é o melhor jeito, globo de cristal? Hein? Diga-me!

Se eu o quebrasse agora, entre meus dedos, não poderia voltar atrás. Mas, também, não poderia consertá-lo. Cristal quebrado não se conserta. Seria o mesmo? Será que meu problema também não tem concerto? Oh, globo de cristal, diga-me: estou apenas paranóico? Preocupado além da conta? Devo parar? Diga-me!

Ouço um bater de portas, poderia ser ela, chegando. Talvez até já tenha chegado. E eu, aqui, sentado no chão contigo entre meus dedos. Posso espatifá-lo a qualquer momento, globo de cristal. Ah, ah, ah! Acalme-se, que não vou fazer isso. Sei que prometi. Não, não menti. Apenas brinquei, é só. Talvez eu esteja só tentando fugir de meu problema. Já pensou nisso? Comece a pensar em outra pessoa senão você mesmo, globo de cristal.

Ah, o barulho de passos subindo as escadas. Na verdade não são os passos que sobem as escadas, mas a pessoa. Mas... para mim não é ninguém, ainda, pois não vejo ninguém. Não concorda comigo, globo de cristal? Está apenas emburrado comigo por causa da brincadeira que fiz. Desculpe-me, não farei mais. Aliás, que ganho teria eu em espatifar-lhe? Bagunça para arrumar, só isso.

Não, não, não seria só esse o problema! Perdoe-me! Seria um corte em meu coração perdê-lo, globo de cristal, nada a ver com bagunça ou sujeira no chão. Saiba que é muito importante para mim. Escuta isso? São passos sim. Falava deles, é vero! Já estão nesse piso, é o que percebo. Chão de madeira é bom por causa disso, decerto. Percebe-se se há alguém perambulando pelo seu andar ou pelo inferior. Talvez seja por isso que casas são feitas de madeira? Neurose dos moradores? Opção menos cara dos construtores?

Desculpe-me, mas terei que deixar de falar contigo por alguns instantes, globo de cristal, pois tenho que pensar em algo para dizer. Ela está diante de mim com aquele olhar de quem precisa de respostas e precisa delas logo. Para que tanta pressa? Pressa não é bom, não concorda comigo? Falo con tigo, globo de cristal. Não fique triste, só vou me ausentar por alguns momentos. Já estarei de volta contigo. Agora, vamos ver... Seria tudo tão simples se pudéssemos congelar o mundo para podermos matutar as idéias sozinhos, em silêncio, sem pressa. É por isso que o mundo está com tanta pressa. Não há tempo para se parar e matutar melhor o que dizer.

É muito bonita a criatura feminina que me exige uma resposta com tanto fervor e indignação. Chega até a me dar alguns calafrios. A raiva é fruto da pressa, também, eu creio. Se todos pudessem fazer o que descrevi há pouco, congelar tudo e pensar, ficaríamos todos mais calmos e tomaríamos decisões melhor pensadas. Diga-me, globo de cristal, não concorda comigo?

Não ia conseguir ficar sem falar contigo por muito tempo. Ela já está aqui, à nossa frente. Descobriu nosso segredinho. Descobriu-nos, globo de cristal. O que faremos agora? Ah, o mundo seria tão simples se todos pudessem fazer o que bem entendessem se não prejudicassem ninguém. Mas, neste mundo, não! Aqui, diariamente temos que encontrar algo que nos incomoda nos outros e condenar essa coisa até que vá e mbora. Não vou deixar você ir embora, globo de cristal. Ficaremos juntos para sempre. Por mais que gritem — como estão gritando agora, deixando-nos surdos! —, podem gritar, nós vamos ficar juntos. Agora há mais gente no quarto. Que bem fará à sociedade nos cercar dessa forma, globo de cristal? Diga-me. Hein? Onde está você, globo de cristal? Trocou-me pela mão dela? Que se espatife, então. Em mil pedaços. E, de fato, se espatifou. Os gritos já não importavam mais.
Ricardo Prado
Enviado por Ricardo Prado em 14/10/2007
Código do texto: T694052

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Sobre o autor
Ricardo Prado
Santos - São Paulo - Brasil, 29 anos
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Ricardo Prado