Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

Desespero no sinal

O sinal está fechado.
Os carros, apressados, buzinam para mim.
Sei que o sinal está quebrado.
Sei que não tem conserto.
Tenho medo de avançar e atropelar os pedestres.
E são muitos. Reconheço algumas figuras na neblina.
Muitos de mim, estão ali, à minha frente,
Se arriscando ao atravessar a rua.
Mas, o sinal está quebrado e os carros buzinam para mim.
O sinal está fechado e os pedestres atravessam.
E muitos dos pedestres sou eu.
Sei que sou eu, mas há uma neblina que me impede de vê-los claramente. Seus rostos estão cobertos.
Me confundo entre essa gente e não sei deles quem sou eu.
Os carros estão apressados, atropelando as pessoas.
São muitos, agora, os atropelados.
Eu fico parado, querendo me defender, eu estou atravessando.
Os carros buzinando, me ordenando a sair.
Estão quase me batendo.
Eu sei que o sinal está quebrado.
E não gosto nada disso.
Eu o queria funcionando.
O retrovisor me informa: há pedestres atrás.
Estão sendo atropelados.
Não há neblina atrás.
Vejo claramente.
Alguns dos pedestres atrás também sou eu
E, ali, fui atropelado.
Preciso me defender à frente.
Não posso deixar que os carros me atropelem.
Mas, a neblina não me permite saber quem sou eu e como estou.
Agonizando de desespero, aqui, nesse volante,
Olho para o meu passageiro e o vejo sangrando, muito.
E o meu passageiro sou eu. E ele está morrendo.
O sinal está quebrado. Alguns carros estão avançando.
Outros buzinam, querendo passar.
Pessoas estão sendo atropeladas à frente,
E um deles posso ser eu. A neblina é densa.
Atrás, quase morri.
Meu passageiro morre pelos atropelados atrás.
Eu sangrarei pelos atropelados à frente.
Provavelmente, também morrerei.
Não posso deixar que me atropelem.
Não quero avançar. Mas preciso avançar.
Não posso deixar que os carros que buzinam me atropelem.
Não quero morrer como meu passageiro.
Me desespero: o sinal estando quebrado; essa impossibilidade de consertá-lo;
A impossibilidade dos motoristas dos outros carros entenderem;
Os outros carros estarem atropelando as pessoas na neblina;
A impossibilidade de saber quem está sendo atropelado;
Eu ter sido atropelado atrás; meu passageiro estar sangrando tanto assim; ele está morrendo; com ele morre um pouco de mim;
O medo que tenho de sangrar como ele; o medo que tenho de morrer como ele;
O medo que tenho de avançar;
A necessidade que tenho de avançar.
Estava sendo empurrado. Não posso ser empurrado.
Tenho que seguir meu próprio curso.
Tenho que tirar o pé da embreagem,
Engatei a primeira marcha.
Tenho que avançar. Engatei a segunda. O sinal ficou para trás.
Não dá pra evitar que me atropelem ficando parado.
Posso atropelar alguém...
Arpejo
Enviado por Arpejo em 22/10/2007
Reeditado em 14/11/2007
Código do texto: T705344

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (Cite o nome do autor w o link para o site "www.sitedoautor.net"). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
Arpejo
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 39 anos
83 textos (3544 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 20/10/17 01:42)
Arpejo