Pairam

Um dia, depois de 7 anos, o psicólogo recomendou que começássemos a pensar em dar um fim na terapia. Embora não dito, era consensual, uma vez que já havia me dado conta de que aquilo que buscava não mais acharia nas sessões.

Não que elas tivessem se tornado absolutamente ineficazes. Apenas, o dilema que ainda me levava a pagar pelo serviço, o prestador já não poderia me ajudar: saber o espaço e o tamanho que a escrita deveria – ou reclamaria - ter na minha vida.

Espaço e tamanho, restam óbvios, o terapeuta não poderia prever, mas somente a própria dinâmica da vida, a síntese do conflito entre as necessidades de sobreviver pelo trabalho remunerado e a de ócio para pensar e escrever no capitalismo.

O terapeuta, muito querido por sinal, disse-me que, caso quisesse marcar outra sessão, enviasse mensagem ou ligasse. Naquele dia, saí com uma dúbia e complementar sensação: de liberdade porque despedida. E, desde aquele novembro de 2019, não enviei mensagem ou liguei, sequer para dizer que era, realmente, tempo de parar.

Passado um ano dessa inação, começo a elaborar que houve, ao modo do paciente, o mais saudável fim da terapia. Assim... acabando, discreto, sereno, sem data fixa ou despedida dilacerante. Acho, inclusive, que o aspecto do fim da terapia é a própria prova de que fora eficaz, posto que não houve fantasias de que poderia permanecer ad infinitum, intocável, e, menos ainda, o sentimento de que se acabou precocemente.

Foi como uma frase que li na Internet que, no raso, é simplória, porém, quando se permite mergulhá-la, capaz de marejar os olhos. Essa frase, escrita em poucas palavras e com um cinismo visceral, faz notar que um dia, sem que percebêssemos, a gente brincou na rua pela última vez.

Tão logo a li, tentei buscar na memória qual foi a última vez em que brinquei na rua. Qual era a brincadeira? Quem estava presente? Foi na rua da casa da minha vó ou na minha própria rua? Nada me veio, senão as vezes em que brinquei e não eram a derradeira.

E mais. Se foi tão bom, por que a gente não detecta, reluta e adia essa última vez? Como a gente deixa escapar esse final de ciclo, sem sequer prantear ou criar uma fúria, digna dos últimos instantes? Assim, tenho apenas a genérica e singela memória de que brinquei – e muito.

Passou, não como o que resta saudoso ou parte prematuro. Passou, como passa aquela roupa que a gente adorava e hoje soa démodé numa fotografia pálida. Pois assim não deveria ser? Sentir o fim como algo emoldurado num porta-retratos, em cima da antiga estante forrada de crochê, que se visita quando se quer, com os olhos distraídos e cotidianos? Rindo, debochando, até chorando, por que nos vestiu numa época, de forma pomposa ou precária, mas se sabe que não nos cabe mais?

É que existem três qualidades de coisas: as que subestimam o tempo – e logo terminam; as que não respeitam o tempo – e ainda permanecem. A última sessão de terapia, a derradeira vez em que a gente brincou na rua e aquela roupa da fotografia são de uma ordem terceira. Não estão entre as que caem temporãs, tampouco entre as que apodrecem no pé. Estão entre as coisas que subvertem a lógica. Elas, serenamente, pairam.