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Habitat

Como um isqueiro meio jogado de lado, um copo de bebida escura deixado pela metade, ou uma almofada em lugar impróprio como o chão pode  guardar uma alma que ali esteve? Só se vendo um papel com rabiscos sem sentido pode-se imaginar com que tipo de movimento e rapidez o autor do rabisco o fabricara. Se usava óculos, ou gravata, ou xale... As almas nunca quereriam morar nas coisas organizadas, nas almofadas colocadas simetricamente nos sofás, no bloco de recados em branco, como uma vida que se passa em tão branco, ou na louça bem lavada e - arauto do apego às minúcias - neuroticamente posta em ordem. Cor, tipo e tamanho.
As mãos da camareira dissipam as almas e seu espanador sujaria as estantes de solidão. As vassouras colocam debaixo do tapete nossas almas mais insuportáveis de tão reais. As almas que, além de nos perguntar sem fim, nos contam tudo acerca de nós, de nossa sujeira, de nossos pés sujos, de nossa insistente poeira sentimental, de nossas teias de aranha mais interiores.
-Água, sabão e vassoura! Sete dias por semana! que eu tenho horror a essa conversa sobre mim...
Fernanda Lobo
Enviado por Fernanda Lobo em 02/11/2007
Reeditado em 28/03/2008
Código do texto: T720676

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Sobre a autora
Fernanda Lobo
São Paulo - São Paulo - Brasil
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Fernanda Lobo