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Sobre o amor

Meus amigos gostam das coisas que escrevo. Dizem que eu descrevo muito bem o amor. Eu fico lisonjeada, mas tal elogio suscitou em mim uma difícil reflexão: O que é o amor? O que significa amar? As relações sempre tão voláteis dos tempos atuais contêm esse ingrediente? Pensei muito e não me atrevi a responder. Contudo, insatisfeita com minha desistência e também curiosa em obter as possíveis respostas, passei a focar meu raciocínio não na tentativa de conceituar o”amor”, mas em entender o indivíduo que se diz possuidor desse sentimento. Então, a coisa tomou corpo, mas nem mesmo assim perdeu a complexidade e o caráter  de desafio.
Li em algum lugar que o amor, assim com ares românticos, foi inventado no século passado. Antes, os indivíduos apenas se uniam em matrimônio para fins sociais, econômicos, políticos, de perpetuação da espécie, etc. Não existia casamento por laço de afinidade, por bem-querer, paixão ou necessidade de dividir com o outro o que há de bom ou ruim em nossas existências. Muito tempo depois, alguns insatisfeitos com esse modelo de relação de contrato, lutaram pela liberdade do sentir, do ser possuidor e mandante do rumo da vida a dois que escolheriam. Instalou-se a era da união genuína. O tempo do amor romantizado. Das declarações de amor em praça pública. Os poetas se deleitaram; o cinema explodiu; a música popular teve seus dias mais fecundos e de glória. O amor ideal era o desejo de todos. O encontro de almas gêmeas: Um marido amado para sempre. Uma esposa respeitada e amada eternamente.
O tempo foi passando e a história mudando. As declarações de amor eterno se depararam com a dura realidade do dia a dia; do tesão que passa; do desejo de estar juntos que se apaga; da revelação da verdadeira face do outro. O tempo é cruel. Instaurou-se o divórcio. Os contratos lá do século passado raramente eram desfeitos. Mas, na era da união amorosa tão reclamada por casais desejosos de sublime felicidade, a união foi maculada pela vil separação.
Bem, aonde quero chegar com toda essa retrospectiva? Quero chegar na confusão gerada na cabeça dos amantes envolvidos nas relações de hoje. Época de internet, mundo globalizado, aviões a jato, second life, tv a cabo. Gente com muita pressa, voracidade, amores descartáveis. Geração resultante do péssimo exemplo de amantes intolerantes. Nem amor romântico. Nem amor de contrato. Agora é amor enlatado, engarrafado e pronto pro consumo. Quem diz hoje que ama, amanhã fala: “ foi mal, não deu. A gente não dá certo, e não gosto do jeito que você passa  manteiga no pão”. Não se faz o menor esforço de entender ou pensar no outro. O egocentrismo é que impera, afinal é preciso se amar antes de tudo e de todos e subjugar a individualidade do outro. A pressa em saciar o próprio desejo atropela o pouco de ética e honestidade que possa ainda existir. A liberdade de escolha do parceiro; a democracia nas relações confundiu-se com descompromisso e libertinagem.
Não vou generalizar o quadro. É claro que existem exceções, e são muitas. Ainda temos muitos casais, sejam de namorados, noivos, esposos ou companheiros que buscam  a tolerância e que desejam para além do seu prazer egoísta, a convivência tranqüila. O compartilhar a realidade do existir, que sabemos, não é fácil.
A conclusão a que cheguei é que eu, quando faço poesia, falo do amor que eu acredito: o amor de graça, tolerante e sim, romântico. É desse amor que as pessoas gostam. Ainda é desse amor que as pessoas carecem desde a geração hi-tech até os unidos em bodas de ouro. Só se precisa desacelerar o ímpeto de possuir pessoas com a mesma intensidade com que se deseja adquirir bens de consumo. Vou continuar a escrever poesias de amor e espero que meus amigos continuem gostando. Quem sabe a literatura ajude ao amor continuar sendo em nós impulso de criação.
O amor é tanta coisa. Comporta tantas outras virtudes como o companheirismo, a lealdade, a fidelidade. Amor é misto de paixão, tesão, doçura, serenidade, preenchimento etc. Desconfie de quem não pensa que seja assim. Para mim, o ingrediente que falta ao amante do século XXI é a tolerância e para escrever sobre o amor sem esse perfil me falta inspiração, graças a Deus!


                                                     Analúcia Azevedo. 05/11/2007.
 
Analúcia Azevedo
Enviado por Analúcia Azevedo em 06/11/2007
Reeditado em 21/09/2010
Código do texto: T725186
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Sobre a autora
Analúcia Azevedo
Natal - Rio Grande do Norte - Brasil, 43 anos
127 textos (12428 leituras)
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Analúcia Azevedo