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Epitáfio Breve

Poema prosa longo sobre a pronta finitude
Dedicado a Franz Kafka

(03:00h da madrugada)
…a muito, muito tempo, um pobre homem que vivia só, disse: Sou um prisioneiro;  e o sou de um prisma celeste, qual folha forra, desprezada e inservível.  Fico a planar, alçando vôo a boreste.  Vou lembrando que de antanho me haviam por belo e galante, com a estrela da manhã encimando sempre o meu norte.   Quando voava, então, tinha asas triunfantes.   Vejo-me agora precipitado, direto ao Hades;  e vou sem um freio que me conteste.
Sou palha e mais que palha, sou esquecimento.   Sigo etéreo ao sabor de toda sorte.   Aguardo para cruzar o Rio Aqueronte.   Cabal espero o barqueiro para o findar-se da minha vida e travessia, alcançando o momento derradeiro.   O meu alento é que já agora não seguirei tão sozinho, porquanto me acompanha a poesia.   (08:15 da manhã)   Acordo.   Preciso mijar.   Não sei dizer se o foi o sonho que invadiu a vigília, ou da-se ao contrario, mas me vejo sentado em borda da cama suado, pensando nas marolas do Aqueronte.   Afronto o deus deste sono que me puxa e que cobiçava esticar o meu esgotamento.   Da alcova, já se preparava a cova.   Numa cabriola vívida, lancei-me da cama ao solo e da sedução da morte, e ainda nu, fui-me ao banho e aos afazeres de um dia sem projetos.   Quem sabe nestas férias não aprendo o Fox-Trote?   Este dia tributário e sem lamurias, rende-me em suas teias de seda.   Como pão e tomo leite.   Sigo pela casa recolhendo objetos que caíram do sonho e velaram a letargia noturna.   Vestindo apenas meias, mapeando pela casa o micro-terreno das sensações irredentas, o tempo magnífico extrajanelas pacificando o espírito que fenece e que às vezes me habita, e quase sempre me enlouquece. Bebo café, releio Drummond e participo do duelo flaco entre o trompete de Chet Baker e o piano de Harold Danko.  Os partidos políticos nacionais disputam o poder pelo radio.  Marconi e Montesquieu promovem a luta de classes, derrotando o meu jazz. (14:47)
Almoço sopa de batatas baroas e tomo um copo de vinho.   Volto ao aprendizado de um morrer condigno.   Em Farewell me ensina o mestre um roteiro para tal advento.   Vejo fotos e remexo guardados para o lembrar esmaecido.   Os livros, os filhos e as promessas esquecendo o que já fora esquecido.   Amores anotados com espátulas finas e frias no cardo buliçoso e sangrento.   Terei vontade de tentar o suicídio?   Os objetos agora tornados cênicos, pulam em minha frente pelo quarto feito atores em um palco ardente, festejando o meu corpo heróico e  encanecido (e abjeto).   Quero sair voando pela janela e me dissolver no vento onde habitam pássaros e tantos desejos perdidos. (18:40)  Anoitece.  Olho o céu que se avermelha.  No longe julgo ver uma nau castelhana desviando-se das mais cumuladas nuvens.   Estou lá tripulante marujo as voltas com o cordoamento.  Sigo ao Novo Mundo com meu aninus celta-galego, minha Lima da Pérsia contra o escorbuto.   Em momentos, já estou de volta à velha casa da infância e a mesma traça esconde num canto a velha herança e a vida breve, que a morte decisivamente leva.  Há a crença revisitada (e que ainda arde) e a esperança de que o amor pese e se confirme sobre a intolerância.  O porto na letargia da tarde é o sono leve de uma criança.  Está ali, o mesmo gene, trazendo a eira, marcha estradeira, picando a mula, no vasto mundo, cruzando a noite, rompendo o dia que a vida anula.  Meu navio, já encalhado, não quer navegar sem fronteiras.  Sinto-me mortiço, triste, sou como uma pluma insone na brisa da tarde, não sou livre, não sei mais para onde ir.  Sou como o velho do sonho, prisioneiro da insensatez dos ventos frios desta tarde.  (21:17)
Não sei quem eu não sou, mas nunca minto.  Apenas tomo emprestado da vida, palavras que nada revelam.  Sou o ermitão que subiu a serra em um dia quente e a desceu na noite escura e fria.  Não proclamo a misantropia. Não é bom viver solitário.  Sou sociável.  Embora goste da vida errante, nunca faltei a nenhum dos meus aniversários.   Mas às vezes fico no quarto, vendo a vida desdobrar.  Foi o acontecido no ano de El Rei de 1837.  Estava lá.  Era o mês de setembro. Pela janela de meus aposentos de dormir sobre o jardim madrigal, lanço para alem da sebe o meu olhar fatigado. Fito ao largo um féretro arribando a colina em frente, pela estrada que se espraia no azular do horizonte.  Nele se vão vultos móveis e escuros. São, contrapontos, homens, cavalos e carros funéreos, de solidão tomados.  Dentro do principal coche, jaz um menino que tempo não teve de sê-lo, e que já se vai da vida, quase dor, envolto em tênue penugem, pouco mais do que um feto coberto de luz, de fogo fátuo e de nuvem.   Li no obituário do jornal provincial: Morreu da malsã maleita o filho único do digníssimo notário!  Ali vai ele!  Eu o vejo!  Dignamente, de cabeça baixa, o triste notário lidera o cortejo.  Acompanha dorido a procissão de tais almas per filiadas.  Uns usam sombrias fatiotas, como estar se deve em um funeral de anjo.   Fito, e por mais que olhe, inda que de aparte, não percebo a chave que  um tal fado elucide.  O divino arranjo que, de tão estranho, se faz em insólita arte.   Como é que Deus deixa morrer assim pequeno?  Assim tão perto, no pleno florir de primavera?   E mesmo antes do arrabalde, antes do fastio da paixão arder no peito?  Deixar morrer assim menino, antes que este se de conta do prazer que vem cu’os ares do matinal frescor?  Antes de atinar nas piculas e nos ofícios de malazarte?  De sentir as paragens do tempo, nas tardes idas num balanço à sombra frondosa de uma mangueira?  Ou, ainda pior!  Deixar morrer antes do calor do afecto no peito, que da vida, é mesmo a melhor parte.  (02:40)   Dedico-me, agora, no meio da madrugada, a mais um café, um cigarro e a escrever um bilhete de suicida...“Aos ratos que me rodeiam, as iluminuras  de minha percepção comprometida; Aos que habitaram minhas entranhas, na intimidade de suas botas e circunstancias curtas,  deixo a livre incontinência de meus intestinos;  Aos que me cearam à farta, meu olhar frio e torpe  sobre as desimportâncias da vida ingrata.  Quando quis, feri o vernáculo com meu verso seco e hirto.  Exerci a pueril controvérsia;  Não reneguei, subscrevi  as atas da jornada infante;  Subverti a consciência e o destino se fez;  Como Rimbaud, retornei há tempo hábil do limbo para corar de ocre sisudez.  Me resta ser vetusto continental ou ilhéu, desde Açores até Paranarimbo,  enquanto lanceta no peito a dúvida assaz corrosiva:  Devo deixar-me à morte clássica ou provar a lâmina súbita e precisa da decisão final?  A morte, não mata só o corpo e liberta a alma, mata também os valores que nos deram identidade, e pelos quais lutamos toda a vida para os conservar.   É natural que os homens queiram, a cada momento, os preservar, mas não pode-se deixar intimidar pelo novo, inda mais quando se sabe que andam juntas a critica e o conhecimento.     As vezes algo nos refreia. E temos medo.  O que é, não sabemos dizer.   Este tempo que receia, em que estamos a viver, vemos que tudo se paralisa e ficamos em tímidos passos, sem viver a vida em cores, sem buscar grandes amores e o trinado alegre dos pássaros.   Ter medo é viver sem poesia, sem convicções e ardores.   Faz perder a liberdade e deforma as emoções.  Vivemos mudando nossos rumos, para evitar as ruas misteriosas.   Este medo não instrui, domina, elimina, faz perder a oportunidade de aprender, mesmo que seja o aprendizado na cátedra do infinito sofrer”.   (3:45)  Creio que é sonho. Me vejo caminhante num tempo ocioso, olhar fixado, devoção demente a um eterno tempo a se perder  no firmamento, irrenovado  mas que sempre, recorrente.  Cruzando sendas, então, estreito os passos em calçadas de antanho  já traçadas, a simular pistas novas, ilusões de veracidade, forças vitais  de um amor de certo, ocluso.  Inescrutável ardor, inútil/fútil vaidade condenação virgiliana ao inferno tenebroso de um desencontro, de todo inexplicável.  Longas calçadas com furinhos no cimento cobertas de inservíveis frutos diminutos. Levam-me para onde ? Para nada ali, mais adiante nesta cidade de horizonte enganador.  Para onde me levam estes meus passos dúbios?  Os passos miúdos de meu filho, para onde?  Para onde o cavalinho de brinquedo e a esperança de criança?  Amor e tristeza são presenças pressentidas na letargia magnífica do fracasso.   Como explicar mais que entender, estes perdidos passos e este nunca entronizado em nossas vidas?  E como dói, como dói esta cólica incurável.   (já não sei que horas são, nem sei se é sonho)   Fulgem-me com seiva as tenebrosas pragas, que levam por artes sórdidas para o longe a serenidade.  Fulgi a tortuosa sensação de morte, quando desiludida, inebriante rosa.   Fulgi o corroer viril, alma e corpo em rasa mistura, lama árida.  A dura e seca estuporação da carne, tornada em pó, na sequidade da vida.  Fulgi a torpeza e a loucura, ainda, só um rematado dibujo.  Se não bastou o amor e o cuidar vigil, a quem cabe a honra que não pode ser devida?  Pois de amor, este mal dito-cujo, jamais se faculta o viver, assim se vê.  Só deriva-se da terminal tristeza, se o filho amado, um ente-passarinho, de melancólica maneira, salta do arvoredo e se vai do ninho, que, se não era muito,  era um tanto, um pálido construto do aconchego.  Fulgi sobre as sinas, pai e filho. Morre sob meus pés a ilusão.  Ingratas penas e todos os seus horrores, rogados por quem, de ruinosa, eterna se destrói,nas labaredas dos avernos inferiores. Ah! Que resplendor dos atrozes enervares. Ah! A inconsciência a responder sobre o silencio. Como, então, não ter mais certezas rudes, do que sejam, do mal, genuínos semeares  O sentimento que passeia em tais pomares é o tal ardor corrosivo, do tortuoso mundo. Na obscura e incompreensível nodoa do poente, um tal amor que é decaído e tão sem fundo.  Então, o que se abriga no peito é mesmo a dor, que remete o corpo psicótico ao gesto balouçante, que, no ímpeto, vai para traz  e vai para frente, promovendo a ambição, sediciosa e suicida do espocar de um coração, pretenso nada, irrequieto, dentro de um peito já doente. (Acordo triste e penso)  Cançado e irrealista, como um personagem de Ionesco, guache e coxo, caminho por ai, falando sozinho e esperando o mimetismo de me ver me transposto em mim mesmo.  Afronto a carranca de truão de meu irmão na vida.  Vibro da intensidade das chamas alheias.  Espero ver-me revertido em fruta e em pão,  no olhar do outro.  Olho a chispa do impensável.  Amo os meus dessemelhantes e os que fizeram de mim  esta notória dissidência. Mas chega! Chega de viver estas mortes insignes e acumpliciadas com o sofrimento.   Chega desta anunciação ingente, destas verdades duras, sonoras, de pedra.   Chega desta merda de vida inglória, de saber e de nada fazer para dis-ser, desdizer.  Chega de portar a morte, como morte em vida, num rodopio de porta-bandeiras, carregando o estandarte do Divino Espírito Santo.  Chega da morte na hora devida, de dever na hora da morte e não ter como pagar para morrer em paz.   (Saio para a rua nesta manhã e penso)  Nossos  atos nos escravizam  mais do que nos libertam pois nos fixam em um momento um infinitivo de tempo, um lapso alem da boa sorte, aquém do arrependimento e escravos também o somos dos desejos  a fora os atos e estes nos torturam e matam, como o fizeram os militares de mil novecentos sessenta e quatro aos jovens idealistas assim, sem trair nenhuma emoção.  Nossos amores são promessas vãs de permanência eterna, pois o mais perto que chegamos dos sentimentos é de lançar olhares lânguidos algo tristes, por sobre os muros da humana contenção.
devolvamos nossas almas à liberdade do eterno plano.  Quiçá seremos, afinal, felizes observando-as a voar levando os sentires encarnados em pássaros exóticos, tuiuiús, fênix, urubus tucanos, jaburus  (sim, os belos jaburus) pois só pássaros tão grandes podem arrastar nosso éter flamas dilatadas de amar e de sofrer  até à esfuziante alegria  da grande Festa no Céu.

RicardoSReis
Enviado por RicardoSReis em 11/11/2007
Código do texto: T733321
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Sobre o autor
RicardoSReis
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 59 anos
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