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Arlequim triste

Nasci com a alma pintada de um arlequim sem função.
Pintado de arlequim, vou ao baile do mundo para ficar encostado no canto.
Com a alma pintada de arlequim, choro pela colombina de um Carnaval que já passou.
Foi ontem ou desliza pela minha íris.
Escorre pelo meu rosto a lágrima que não me permito.
No baile, dançam os personagens, girando, girando, alegria refletindo minha solidão.
Ah, o canto dos arautos da minha tristeza.
Ah, como esses arautos têm a voz doce.
Como soam aos meus ouvidos.
Alma chora tanto, que o dedilhado do piano parece uma sentença.
Percebo o grave em contraste à voz aguda do arauto.
Corro à cítara para acompanhar esse canto, cordas quebradas.
Seria possível reabilitá-las?
Ah, essa pintura de arlequim na minha alma.
Ah, esse arlequim sem graça.
Ah, essa falta.
Essa falta indefinível das cordas da cítara.
Esse gemido reprimido.
Essa minha voz incapaz de sopros altivos.
Ah, esse baile.
Esse baile cheio de personagens alegres.
Eu, arlequim original. Arlequim original, sem função definida.
Função perdida a algum pierrot espertalhão.
Roubou-me a função.
Curvei-me, tento em vão corrigir a postura.
Minha íris tornou-se míope, mas não me impede de perceber o que diz os espelhos.
Ah, como esses espelhos fazem questão de me mostrarem o que não quero ver.
Ah, como isso que vejo me incomoda.
Ah, como esse incômodo me perturba.
Troco os óculos por lentes e, assim, quero ver o azul do céu.
Meus óculos mostram-me um cinza mórbido.
Até o azul lembra-me lágrimas.
O vermelho é meu próprio sangue escorrido pelas minhas feridas.
E o verde é musgo em alguma piscina descuidada,
deixada sozinha, entregue à ação do tempo.
E o baile não acaba.
Eu, arlequim, arlequim sem função.
Essa pintura de minha alma não se lava.
Ah, alva pintura de meu rosto.
Ah, gemido que me acorda à madrugada.
Ah, alma que chora.
Ah, vontade...
Vontade...
Ah, esses personagens.
Ah, colombinas desdenhosas.
Ah, esse dedilhar de teclado.
Essa incapacidade de acompanhar esse canto, mudar o ritmo do canto.
Ah, esse canto, esse canto a mim reservado, onde só escuto o canto e o que me soa.
O que me soa...
Ah, essa madrugada.
Essa madrugada insone feita da lembrança de algum instante mal-resolvido do dia.
Ah, os meus dias.
Meus dias.
Eu, arlequim, arlequim sem função.
Arpejo
Enviado por Arpejo em 20/11/2007
Reeditado em 20/11/2007
Código do texto: T744172

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Sobre o autor
Arpejo
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 39 anos
83 textos (3545 leituras)
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