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DIS(u)TOPIA MARXIANA

DIS(u)TOPIA MARXIANA

     Pensadores do século XIX, sobretudo Frederico Hegel e Karl Marx, desacreditaram de verdades atemporais. Na verdade, havia o “vir-a-ser” contínuo, o “ensolarado desenvolvimento histórico” a iluminar os horizontes humanos. Eis, portanto, a história grávida... em tempos de dramas compostos por muitos atos conflitantes procedentes tanto do reino das idéias quanto da realidade.
     Misericórdia Previdência...! deu termo aos sofrimentos da senhora Clio (Musa da História): ela havia dado à luz a uma vigorosa Dialética: guerras, revoluções, violentos levantes de classes sociais (“Comuna de Paris” etc...). A razão triunfara, não podendo ser refreada. É chegado o dia de ir ao encontro do “Paraíso Terrestre”. A arrogância hegeliana de ser a derradeira filosofia na Filosofia foi encampada pela sociedade sem classes, isto é, a sociedade comunista idealizada por Karl Marx. Anuncia, assim, a faústica razão marxiana:

     “_ Um espectro paira sobre a Europa, o espectro do comunismo”.

     Enfim, a humanidade deixara de se comportar egoisticamente, pois, agora tinha à frente um mundo a conquistar. Brada, decididamente, o projeto faústico-marxiano:

     “_ Proletários de todos os países uni-vos!”.

     Tempestuosos heróis modernos, quais novos Prometeus — Prometeu aparece na mitologia grega como o iniciador da primeira civilização humana, roubou o fogo do Olimpo em prol da inventividade humana. Em castigo, foi acorrentado numa montanha, onde um abutre lhe devorava o fígado —, rejeitam radicalmente as leis de suas sociedades, determinados a se expressarem livremente e a qualquer custo. Legitimação de discursos inflamados e apologéticos diante da “verdadeira história” repercutem no campo da historiografia. Por conseguinte, desdobra-se no campo da educação: o socialismo pretende realizar a plenitude do homem, isto é, libertar o homem da opressão exercida pelas classes dominantes (“A história de toda sociedade até hoje é a história de lutas de classes...”, enfatiza Karl Marx num de seus escritos), para que ele recupere a totalidade do seu “eu”. Marx descobre no proletariado de sua época — não no Estado idealizado de Hegel — a capacidade dele vir a assumir a tarefa messiânica de emancipação universal da humanidade contra toda a opressão do homem pelo homem. Desse modo, afirma Marx que “de todas as classes da população se recruta, assim, o proletariado”. O proletariado libertará o homem no momento exato em que se libertar a si próprio. Em “Princípios do Comunismo”, escrito por Engels (discípulo de Marx) em 1847, lemos o seguinte:

     “(...) para se educar, os jovens poderão recorrer a todo sistema produtivo, a fim de que possam passar sucessivamente pelos diversos ramos da produção — segundo as diversas necessidades e suas próprias inclinações. Por ele, a educação os libertará do caráter unilateral que imprime a cada indivíduo a atual divisão do trabalho. Desta forma, a sociedade organizada, segundo o modo comunista, dará a seus membros oportunidade para desenvolverem tanto os seus sentidos como as suas aptidões. O resultado é que, necessariamente, desaparecerá toda a diferença de classe.”

     Apologia à compreensão do sentido da atividade produtiva em sua totalidade e à importância da subsistência humana dirigida pelos imperativos das diversas necessidades humanas. Nesse caso, o trabalho compõe, na concepção marxiana, o elemento essencial para o entendimento do homem, da história e da sociedade. Pelo trabalho, o homem se auto-transforma em relação material com o mundo e, assim, sob o impulso do desenvolvimento da produção, a sociedade engendrará homens íntegros e totalmente novos.
     Conseqüências da aposta ilimitada no credo marxiano?
     Aprofundamento da ruptura com a nossa tradição de pensamento, uma vez que o projeto de transformação radical da sociedade, sonhando virar pelo avesso a Modernidade, voltou-se contra si próprio: o conceito de um bem comum, nos moldes marxianos, válido para toda humanidade (?!), sem discernir muito bem entre o que é possível e o que é impossível para o homem, revelou-se enganoso. Consoante Guy Debord (1997),

     “...a revolução proletária depende inteiramente dessa necessidade: pela primeira vez, a teoria, como entendimento da prática humana, deve ser reconhecida e vivida pelas massas. Ela exige que os operários se tornem dialéticos e inscrevam seu pensamento na prática; por isso, pede aos ‘homens sem qualidade’ muito mais do que a revolução burguesa pedia aos homens qualificados a quem ela delegava sua instalação: pois a consciência ideológica parcial edificada por uma parte da classe burguesa tinha como base essa parte central da vida social, a economia, na qual esta classe já estava no poder. O próprio desenvolvimento da sociedade de classes até a organização espetacular da não-vida leva, pois, o projeto revolucionário a tornar-se visivelmente o que ele já era essencialmente.”

     Outros resultados? Além do já apontado aprofundamento da ruptura com a nossa tradição cultural, são os inevitáveis fracassos, os retrocessos, os retornos à barbárie, enfim, a disseminação dos Gulags, do totalitarismo stalinista, dos governos totalitários sob a máscara de socialismo real (a antiga Alemanha Oriental, a atual Cuba etc.)
     Ah, nossas Modernidades! Tempos esclarecidos?
     Velejando com a imaginação criadora de Franz Kafka (“Contos, fábulas e aforismos”. Editora Civilização Brasileira,1983), evoquemos o mito de Prometeu e tomemos contato com a narrativa kafkiana. Reinterpretando o astucioso Titã, o escritor Kafka, alegoricamente, redefine-o em variações de quatro sagas... Armadilha!  De repente, notamos surpresos que deuses e águias cansaram-se, que Prometeu confunde-se com a própria rocha, e apenas “restou a inexplicável montanha rochosa”. Ou, contemporizando com Hans M. Enzensberger (“Mediocridade e Loucura”. Ática, 1985), contra as ilusões do economismo marxiano ou a intransigência em nossa era da comunicação, eis um estranho brado:
     
     “Bilhões de todos os países, uni-vos!”.

     Ou ainda, no plano temporal do século XIX, com a explosão da escrita romancista do francês Gustave Flaubert (“Bouvard e Pécuchet”):
     
     “ _ Oh socialistas, eis vossa úlcera: o ideal vos falta; e aquilo mesmo que perseguis escorrega-vos por entre os dedos como uma onda; a adoração da humanidade em si e para si (...) esse culto do ventre, digo-vos, não passa de ventos...”

     1989: Queda do Muro de Berlim. Estrondos e escombros. E o socialismo alça vôo rumo ao horizonte utópico...
     2005: DISTOPIA. O planeta fora dos gonzos, fora dos eixos! Ruidosas tempestades varrem terras e mares da nossa Modernidade XXI. Os sobreviventes, todos à proa, lançam as âncoras. A remo, a nau alcança a praia. Na areia o mar rebenta...


PROF.DR.SÍLVIO MEDEIROS
   primavera de 2005


SÍLVIO MEDEIROS
Enviado por SÍLVIO MEDEIROS em 22/11/2005
Reeditado em 18/12/2005
Código do texto: T74863

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Sobre o autor
SÍLVIO MEDEIROS
Campinas - São Paulo - Brasil, 61 anos
267 textos (352004 leituras)
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SÍLVIO MEDEIROS