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POR DETRÁS DO BALCÃO

      POR  DETRÁS  DO  BALCÃO
                                       Elizabeth Fonseca
       
Por detrás do balcão, eu via a vida passar.
Passava o sonho, a fantasia,
Passava o riso, a graça,
Os namorados na praça.

Por detrás do balcão, acompanhava tudo.
Era, às vezes, divertido,
Às vezes, chocante.
Era o freguês matuto, que nos seus costumes,
me lembro certo dia :
- o que deseja, moço ?  perguntei.
- Quero cano de bota. – (era um armazém de secos e molhados e não uma sapataria)
- cano de bota não tem, temos botinas (era comum ter botinas para os lavradores da terra)
Fui acudida pelo colega, que era macarrão cano-de-bota, (costume popular de apelidar as coisas).
- Ah ! sim, macarrão cano-de-bota temos. Quantos quilos ? afinal, o freguês tem sempre razão.

Por detrás do balcão, uma senhora, um tanto desorientada, segurando um filho à mão,
Chegou a mim apavorada.
- Moça, o que eu faço ? meu marido está ali e quer me abandonar.
Eu, adolescente ainda, pouco sabia aconselhar, mas já sentia a chama do amor, apenas disse :
- Não se preocupe, ele voltará atrás, converse com ele.
Algum tempo depois a senhora voltou me dizendo:
- Moça, obrigada, deu tudo certo, meu marido me ama.
Fiquei feliz porque meu conselho deu certo.

Por detrás do balcão, chegou um jovem anão, preto, colega de escola.
Era  muito simpático. Nas festas, dançava pra valer.
Mesmo com suas pernas tortas, sabia muito bem sambar
e era querido por todos.
João era defeituoso de nascimento, corpo longo e membros curtos,
por isso apelidaram-no João Anão, carinhosamente.
Mas nesse dia o João anão chegou ao balcão;
ficou parado, esperando a vez.
Às pressas, eu atendia quando, de repente,
João que estava me olhando,
Perdeu o equilíbrio e caiu ao chão.
Tive vontade de rir, mas escondi-me detrás
de um pilar, para não causar constrangimento ao meu amigo.

Por detrás do balcão eu vi, certo dia,
Dois bêbados sentados num banco da praça.
Escoravam-se um ao outro, conversavam mole
Chegando à pontinha do banco, um deles caiu.
A bebida traz o homem ao ridículo,
Sendo espetáculo de graça.
 
Eu vi por detrás do balcão,
O ônibus do Quebra-Coco chegar.
Desceu um jovem casal de noivos.
Ele, de terno e gravata, cabelo crespo, com brilhantina.
Ela toda de branco, vestido rendado e rodado,
com muita armação, véu, grinalda e um
buquê de margaridas na mão.
Os dois e sua comitiva seguiram para o cartório
que ficava na mesma rua, um pouco acima.
Logo mais, felizes e sorridentes, consagrados pelo matrimônio,
chegaram à praça para ser fotografados, frente-à-fonte luminosa.
A simplicidade de camponesa, a felicidade,
O riso espontâneo, o caminho que iriam trilhar
Eram, com certeza, juras de amor.

Por detrás do balcão, como espectadora,
Muitos acontecimentos vi passar,
Muitas pessoas eu conheci.
O carinho, a afeição, a humildade,
A arrogância, o infortúnio.
Por tudo eu tive admiração.

Por detrás do balcão ...
Todas as vidas passam, como passam
os sonhos e ilusões,
Que a vida tece com realidade.
- E foi por detrás do balcão
Que, às vezes triste, feliz ou emocionada,
Prisioneira de meus fiéis sentimentos,
Romântica e apaixonada,
Sem direito de amar e ser amada.
Entre olhares ardentes e sorriso roubado,
Eu via, o meu primeiro amor passar...
E que também passou.

              * Do livro Retalhos da Vida
Elizabeth Fonseca
Enviado por Elizabeth Fonseca em 24/11/2007
Código do texto: T749942
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Sobre a autora
Elizabeth Fonseca
Campo Grande - Mato Grosso do Sul - Brasil
54 textos (3039 leituras)
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Elizabeth Fonseca