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Um querido alguém

Era uma vez uma menina perdida e encontrada em sua vida de vales e montanhas sombrios.

E ela vivia tudo sem paixão alguma, como se já tivesse visto de tudo e o mundo fosse só muito tedioso para ela.

E era.

Parecia, às vezes, uma pessoa extremamente calma e silenciosa.  Parecia, às vezes, desatenta, pois a vida corria à sua frente e ela nem reparava.

Nem se importava.

Podia falar horas seguidas e nada dizer, assim como podia contar sobre sua vida e nada revelar de essencial.

Era como se a névoa de mistério que envolvia sua existência não evaporasse nunca.

Eu me surpreendia em cada gesto e em cada manha, porque ela não se deixava desvendar e permanecia em relação à mim como o escuro, o frio e o distante. Ela estava para mim como a imortalidade está para os humanos - era algo pouco inteligível ou praticável, mas que parecia fazer sentido, de algum modo, e cada minúsculo aspecto de sua formação parecia trançar-se com perfeição um com o outro, como os fios desengonçados de um extravagante tapete, de forma que o singular errado é anulado pela harmonia do produto final. Mesmo assim, era para mim como uma contradição.

Nela, uma máscara óbvia, uma tentativa desesperada de fuga.

Como se em seu mundo de caos chovesse todo o tempo e ela, indefesa, tentasse refugiar-se, para não se molhar, escondendo-se sob uma personalidade que não lhe convinha com exatidão.

Nela, pouco era verdadeiro, quase nada em suas risadas era completamente seu.

Em sua fala, discretos sinais de uma crueldade trabalhada e perfeccionista.

Em seus atos, uma comédia trágica em que ela encenava as peripécias de todos os seus personagens - às vezes, sua única diversão. Várias faces em seu interior e nenhuma que parecesse correta.

Dizia de seu mundo todo errado e de sua dor espiritual.

Fazia do inferno criado seu templo e nele vivia encastelada.

Às vezes, parecia tão sincera com seu sofrimento, tão lúcida sobre sua psicose.

Tinha vezes que parecia achar em tudo aquilo um toque teatral. Além de infernal, aquela situação a tornava bastante poética.

Atravessava a existência discretamente e eu teria vontade de dizer dela alguém silencioso e tranqüilo no exterior cuja função seria de esconder um interior atormentado, desespero, violento e cheio de paixão. Mas, refletindo com sensatez, não é essa a opinião que tenho dela.

Para mim, não era calma, muito menos perturbada, e, sim, estava confinada a um castelo de tédio e silêncio, que não lhe cabia. Isso fazia com que não parecesse desse mundo e como se nunca fosse se enquadrar de fato a nenhum paralelo ou inverso. Era uma pessoa fantástica demais e inteligente demais para se contentar a somente uma verdade.

Era excêntrica em suas manias discretas, era pitoresca como a arte final de uma pintura antiga (aquelas em que os rostos pintados, apesar de perfeitamente retratados, não parecem humanos o suficiente para serem encontrados nas pessoas que caminham pelas ruas) e fascinante a um ponto que gerava irritação e desprezo, mas nunca piedade, compaixão ou qualquer espécie de misericórdia.

Era aquele tipo de pessoa que se olha sem entender, com quem se fala sem nunca ser íntima o bastante e que nunca parece próxima o suficiente para apreender sua essência, e, mesmo assim, sabe conquistar e convencer a todos de todo seu potencial.

Parecia inventada e eu nem bem acreditava que existisse.

Em vales e montanhas sombrios, perdia-se e encontrava-se uma menina.
Julia Cardoso
Enviado por Julia Cardoso em 29/06/2006
Reeditado em 29/06/2006
Código do texto: T184755
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Sobre a autora
Julia Cardoso
São Paulo - São Paulo - Brasil, 27 anos
6 textos (337 leituras)
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