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NARRAÇÃO: OS ADOLESCENTES E O REGIME MILITAR

Era um grupo de seis jovens que formavam um pequeno círculo onde conversavam sobre os mais diversos assuntos que faziam parte do cotidiano deles, principalmente no tocante às meninas da escola. O mais velho do grupo - quase adulto - que todos conheciam como “Nildo Bocão”, falava que havia tido a experiência mais fantástica da vida dele e, pelo que foi dito e repetido, foi mais de uma vez adentrar nas partes íntimas da Suzi, por isso era, de certa forma, venerado pelos demais. Suas fantasias sexuais criavam um “status” de superioridade. Contando os sórdidos detalhes e deixando excitados os moleques que estavam atentos, pois que nunca haviam visto uma mulher sem as vestes, dado o excesso de pudor e a falta de informação da época. No entanto, bastava ver uma “dona” de roupas justas ao corpo que a mente trabalhava e sua visão de raios-X a deixava nua em folha. Era 1980.
No melhor da animada e curiosa conversa, eis que surge, naquele entardecer de outono, uma viatura da polícia militar que, sem perguntar muito, interrompe o bate-papo vespertino dando pancada em quase todo mundo, exceto nos mais espertos que sumiram em desabalada “carreira”, ao perceber que daquele automóvel escuro não sairiam coisas agradáveis como as garotas dos seus sonhos. E o Nildo Bocão? Este foi dar um passeio nada descontraído com os policiais, só retornando no dia seguinte o costumeiro ponto de encontro dos jovens rapazes. Seus lábios inchados das pancadas que teria tomado faziam jus à alcunha que acompanhava seu nome próprio naquele dia. Alguns dos meninos perguntaram o que teria acontecido, mas ele preferiu se ater à retomada da conversa que havia sido interrompida no dia anterior, afinal, ele adorava falar das qualidades da Suzi quando se contorcia de “amor”. No fundo ele tinha absoluta razão quanto a isto, pois quando se relembra um episódio doloroso é como sofrê-lo novamente. Lembrar das curvas, coxas e bunda da Suzi amenizaria as dores das torturas que sofrera sem saber qual o motivo.
Estavam no fim de um período nebuloso da nossa história (o regime militar), porém, eles nem entendiam o significado da palavra “subversivo”. Mas o fato de estarem agrupados indicava algo proibido. Os pais do Nildo Bocão foram levados ninguém sabe por quem, nem mesmo o Nildo, e até hoje não voltaram. Por ter sido criado pelos avós maternos, o Bocão sempre viveu meio solto, principalmente nos cabarés da cidade onde era levado por um tio pervertido (irmão de sua mãe) que conhecia todas as prostitutas pelo nome. Suas tardes eram de dar “palestras” aos jovens adolescentes sobre suas experiências com as meretrizes - para ele, doutoras na arte de fazer amor. Por ser delas conhecido, as amava sem precisar pagar. Bons tempos aqueles! A violência só vinha da polícia, mas para isso bastava estar “certinho” com os documentos e tomar distância dos homens de farda. As estatísticas eram menos cruéis com os distintos trabalhadores neste quesito. Naquela época, o único registro significativo de aumento foi, tão somente, da água consumida no chuveiro devido ao tempo excessivo que os meninos passavam no banheiro, depois que os meninos voltavam da roda de jovens amigos da qual fazia parte Nildo Bocão. O paradeiro do nosso protagonista hoje é incerto e insabido, mas o sucesso da vida conjugal dos outros cinco jovens adolescentes se deve às “palestras” dele.
LUCIANO SILVA
Enviado por LUCIANO SILVA em 15/06/2007
Código do texto: T528331

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Sobre o autor
LUCIANO SILVA
Vilhena - Rondônia - Brasil, 43 anos
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