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             Nascido em Jequié, em 1966, em plena vigência da Ditadura Militar, colhi os frutos malditos que o Planalto Central sequer imaginava estar nascendo Brasil afora: a fome, a miséria, a falta de habitação, falta de escola, falta de saneamento básico, falta de segurança, falta de atendimento médico. Enfim. Filho de mãe paralítica das pernas (Paula Almeida de Jesus) e de um trabalhador braçal (João Alexandre de Jesus), tendo mais sete irmãos menores, não teria outra perspectiva de vida senão as drogas, a violência, a condenação ao analfabetismo e à exclusão social, banido do rol da cidadania plena.
Perdi meu pai aos dezesseis anos, ficando co-responsável, juntamente com minha mãe, pelo sustento e rumo da família desde então. Minha mãe era analfabeta total, e eu a ensinei a ler e a escrever. Paula, minha mãe, apesar da pouca instrução, tinha um senso de responsabilidade muito grande, inclusive ficou viúva e solteira por toda a sua vida, até sua morte em junho de 2000. Dedicou todo o seu tempo a cuidar e a educar os filhos, à sua maneira, sempre indicando a alternativa do bem quando se vislumbrava a sedução pelo caminho das drogas, do roubo e da mentira. Fomos educados à moda antiga, em que a mãe, então matriarca, cuidava como uma loba de suas crias, defendendo a nós todos com unhas e dentes. São oito filhos, incluindo a mim.
Precisamos comer carne podre; pegar mortadela, salame e queijo dentro do esgoto do Hospital Prado Valadares; dormir várias noites com fome, esperando que “Jesus vai trazer amanhã”, que era a frase para consolar a oito filhos famintos. Fomos expulsos várias vezes das casas que alugávamos, após vencido o prazo do pagamento do aluguel, por absoluta falta de dinheiro. Passamos mais de vinte anos mendigando pelas ruas da Cidade Sol (apelido da cidade de Jequié/BA), vivendo às custas de esmolas de quem se compadecesse. Enfrentamos tuberculose, asma brônquica (por subnutrição), enfrentamos noites de chuva com a mobília na calçada, após ser expulsos de onde morávamos. Enfrentamos a vergonha de empurrar minha mãe ladeira acima e ladeira abaixo, numa cadeira de rodas quebrada... Mas vencemos.
Toda a nossa vida foi marcada por baixos e mais baixos ainda, mas minha mãe sempre manteve viva a chama da esperança e da fé: “O ano que vem as coisas melhoram”, era o bordão predileto dela. Ficávamos todos esperançosos e pacientes esperando o ano que nunca trazia melhoras. A educação básica, em escolas públicas, minha mãe nos concedeu. Dali partimos para um mundo de descobertas de que nós também éramos capazes de sobreviver às próprias expensas. A luta foi insana, e para alguns da família a luta ainda continua, hoje não mais tão ingrata quanto antes.
Estamos todos vencedores. Cada um com sua própria casa, sua própria família.
Eu sou funcionário do Tribunal Regional do Trabalho da 5ª Região, desde 1990, de onde tiro meu sustento.
Acredito que um resumo de minha vida não consegue passar toda a tragédia e dor que passei com minha família nos últimos anos, até conseguir conquistar um lugar ao sol.
Mas acredito que minha história será exemplo de vida para muitos brasileiros que lutam no dia a dia dos ônibus superlotados, que ralam no batente diário por um mísero salário. A fé no futuro e a luta por um mundo melhor é a tônica que me levou a chegar onde cheguei: um lugar em que eu sempre sonhei e quis.
Obrigado pela atenção.
 
Valdeck Almeida de Jesus
 
 
 
 
Valdeck Almeida de Jesus
Enviado por Valdeck Almeida de Jesus em 03/09/2007
Reeditado em 05/09/2007
Código do texto: T636609
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Sobre o autor
Valdeck Almeida de Jesus
Salvador - Bahia - Brasil, 51 anos
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Valdeck Almeida de Jesus

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