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A Caridade

Angustiada, mais uma vez, pus-me a pensar nessa vida tacanha e traiçoeira. Ora, menina, não sejas tão pessimista! Afinal, mal começaste a vida e já te desesperas sem motivo. Isso foi o que me disse a consciência e logo percebi que a voz dentro de meu peito estava certa e que tinha razão. Ainda sou muito moça para entrar em ilusões sórdidas, e tenho certeza de que há tanta vida pela frente. Vivi ainda tão pouco.

Espero morrer antes de tornar-me velha de fato. Não velha de tantas rugas. Velha de alma, de espírito idoso e resmungão. Sem esperanças. Sem vontades. Espero que Deus não me tenha reservado este castigo pífio, pois, no mundo não há pior sentença do que ser condenado a viver sem sentimentos. Que o Pai seja bondoso comigo e não me deixe envelhecer a alma.

Não me importaria de não ver o mundo, se soubesse que ainda há muito que eu possa fazer para melhorá-lo. Tampouco reclamaria da falta de sonoridade das coisas se pudesse me pôr a contemplar a beleza da vida em cada gota d’água e no poente. Mas, se por acaso ou ironia do destino, o amor do peito eu perdesse como quem perde uma pratinha, ai sim, teria perdido a mim mesma. Que seria de mim senão o amor que sinto e que carrego? Não muita coisa.

Declarar-me nunca foi difícil, aliás, gosto de dizer palavras doces aos que merecem ouvi-las. Aos que não precisam delas, reservo apenas meu silêncio como resposta aos berros dos infames. Eis a melhor resposta, sem dúvida.

Já que estou aqui na Terra, e que Deus me reservou este lar, por que não gostar daqui? Sim, pois passarei longos anos de minha vida neste jardim, cercada de flores diferentes. Cada casa é um canteiro e cada pessoa uma flor. Nos basta ter cuidado uns com os outros e a humanidade finalmente florescerá, e eu, direi adeus ao meu vago desespero sem porquê.

Veja, não é um trabalho tão ardoroso a caridade nem requer muita técnica. Se tiveres ouvidos, podes escutar o apelo de alguém. Se tiveres mãos, podes cuidar de um enfermo. Se lhe foi dado o dom da palavra ou da escrita, deixe que seu coração fale por ti, e que não digas assuntos vãos, mas que de sua boca saiam palavras de conforto.

Em conclusão, vejo que a cura para o mal do desespero da alma, é a troca de afeto entre os irmãos terrenos. A cura para meus pensamentos egoístas e simplistas, não está em ajudar a mim, porém, em ajudar a quem quer que seja, onde estiver. Estender a mão para alguém que deseja levantar-se, nos dá força para seguir em frente e a sordidez dos pensamentos mais mesquinhos é passada para trás. E daí, não há mais solidão, pois, o que é estar sozinho senão ser egoísta? Por isso, acredito que um homem somente é solitário quando não é solidário. Sejas amigo hoje, para ter com quem contar amanhã. Amanhã e sempre.
Carol Bohone
Enviado por Carol Bohone em 10/09/2007
Código do texto: T646943
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Sobre a autora
Carol Bohone
São Bernardo do Campo - São Paulo - Brasil, 24 anos
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Carol Bohone