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Minha experiência como deserto

Eu sou um deserto e não me sinto nunca o mesmo; sinto-me em constante transformação. O vento muda a todo instante minha topografia, muda toda hora a constituição das minhas dunas. Minhas dunas sou eu, sou do que sou feito. E toda hora o vento vem e muda tudo de lugar e não me reconheço mais. Não sei mais se sou eu mesmo.

De dia sou muito quente, de noite, frio demais. Não me entendo. Cada hora sou uma coisa diferente do que era, sem nunca me decidir aonde vou, como vou e como quero ficar. A vida é esse inexorável “não sei”. Mas que vida? Não existe vida em mim. Sou inóspito. Uma bela flora jamais nascerá sobre mim.

Na verdade, me sinto inóspito no sentido de não merecedor da vida; não sinto que mereço ver uma linda rosa florescer sobre mim. Esse céu escuro ameaçador sobre mim o tempo todo, o vento esbravejando o que não quero ouvir. Sou apenas um deserto...

Sei que a vida não me habita, mas não vejo a morte como parte inerente a mim. A morte não é negação da vida. A morte é chance de recomeço, e nem isso eu tenho presente em mim. A minha grande chance já se foi, nada mais é possível em mim, de mim ou para mim.

Queria ter um rio fluindo a vida por entre minhas dunas, minhas partes. Mas não sei se sou merecedor de tudo isso...
melão
Enviado por melão em 06/12/2007
Código do texto: T767791
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Sobre o autor
melão
São Paulo - São Paulo - Brasil, 28 anos
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