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Ao cair da tarde

Recebi ontem o precioso livro “Ao cair da tarde” [Editora ABC, Fortaleza, 2006] de Lustosa da Costa, e de uma sentada, ou melhor, deitada [mania que tenho de ler num velho tucum de embira de carnaúba] consumi as 96 crônicas enfeixadas nesse mimoso volume de 150 páginas.

“Ao cair da tarde”, pelo título, já é um poema, um verso de cinco sílabas, quer nas crônicas do cotidiano, quer no perfil de amigos ou inimigos, quer nas suas observações de viagem – o livro se banha com a unção de um lirismo encantador.

Suas crônicas parecem esconder uma complexidade pressentida sob límpida naturalidade, numa prosa divagadora de quem conversa distraído, passando o tempo, sem se preocupar com o jeito de falar. E, no entanto, uma prosa cheia de achados de linguagem – uma sintaxe livre e flexível – propiciando poesia num ritmo leve e doce que nem caldo de cana espremida.

Uma experiência que se transmite por estórias, que parece vir de outros tempos e retomar o fio da tradição oral, tal qual os contadores de causos [é mentira, Terta?], espalhados por estes rincões de Maria Bonita e Lampião.

Lustosa da Costa, cronista hoje consagrado, começou no jornalismo, ainda nos anos 50, no Correio da Semana, da sua querida e sempre lembrada fidelíssima cidade Januária do Acaraú. Época da popularização dos veículos de comunicação de massa, quando o jornalismo conquistava enormes contigentes de leitores – promovia o consumo, suicídio de presidente, destituía ministros e cassava deputados, como hoje. Era, enfim, o chamado “quarto poder”. Ou é.

Como afirmou Mário de Andrade, que conto é aquilo que o autor do conto afirma ser conto, tal definição se aplica ainda com mais propriedade à crônica moderna brasileira. Por ela se poderá verificar o quanto é variável de um para outro o conceito desse gênero literário que engloba tudo: lembranças de infância, flagrantes do cotidiano, considerações literárias, notas de viagem, tipos inesquecíveis, páginas de memórias, bricabraque e tal.

Lustosa da Costa merece o nosso carinho e a nossa admiração, no momento em que lança mais um livro, dando continuidade, assim, à sua vocação literária, numa terra em que a crônica tem excelentes cultores, nas obras de um Ribeiro Ramos, Rachel de Queiroz, Milton Dias, Ciro Colares, João Clímaco Bezerra, João Jacques, Osmundo Pontes, Padre Antônio Vieira, Soares Feitosa, Roberto Pires e tantos expoentes da literatura cearense. O que nos deixa sorumbáticos [sorumbáticos?] é que a maioria deles já viajou pra cidade dos pés juntos. Então, que viva. Viva muito. Viva Lustosa.

Entre, amigo leitor, ao cair da tarde, no mundo mágico de Lustosa. Estas crônicas – poesia do cotidiano – a partir de agora em forma de livro, passam a ser um bem comum de todos nós. Venha participar dessa festa de inteligência, que é a convivência com Lustosa da Costa.


VICENTE FREITAS - licenciado em história e geografia pela Universidade Estadual Vale do Acaraú - UVA. É autor de vários livros e escreve artigos e ensaios para jornais, revistas e internet.

Vicente Freitas
Enviado por Vicente Freitas em 06/09/2006
Reeditado em 06/09/2006
Código do texto: T234183
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Sobre o autor
Vicente Freitas
Bela Cruz - Ceará - Brasil
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