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VIAGEM AOS SEIOS DE DUÍLIA - ANIBAL MACHADO

“Debruçado na janela, José Maria olhava para a cidade embaixo e achava a vida triste. Saíra na véspera o decreto de aposentadoria. Trinta e seis anos de repartição.
Interrompera da noite para o dia o hábito de esperar o bondezinho, comprar o jornal da manhã, bebericar o café na Avenida, e instalar-se à mesa do Ministério, sisudo e calado, até às dezessete horas.
Que fazer agora?
Não mais informar processos, não mais preocupar-se com o nome e a cara do futuro Ministro”

Anibal Machado soube, com rara sensibilidade, demonstrar um homem se defrontando com a aposentadoria e a necessidade de criar novo horizonte para o desenrolar do cotidiano no conto Viagem aos seios de Duília.
José Maria tem de se acostumar a uma nova realidade, contudo, os trinta e seis anos vividos na repartição, com a vida marcada pelos horários e inquietações do funcionário, deixam o personagem perdido e com a sensação de que perdeu o dom de viver.
José Maria empreende uma longa viagem interior, a fim de se descobrir em seus ideais privados, tenta liberar-se do cárcere que sua suposta liberdade o impõe, mas sempre se trai com alguma justificativa para se encontrar nas cercanias do Ministério e com os colegas da repartição. Com o tempo sente que a denominação de “funcionário público aposentado” lhe cai como um atestado de óbito e deixa de freqüentar os lugares em que não tem outra identificação.
Sem encontrar no presente algo que o faça sentir vivo e valorizado, volta-se às recordações do menino de dezesseis anos descobrindo o mundo no colo de Duília. As primeiras descobertas e o desabrochar do desejo são desentranhados diante da impossibilidade dos projetos como o autor declara: “Não encontraria mais os caminhos do futuro, nem havia mais futuro nenhum. Chegara ao fim da pista...”
O funcionário aposentado abandona sua casa e todo o tempo vivido na capital e se aventura numa longa jornada com a finalidade de encontrar o adolescente José Maria e sua Duília, cujos seios iluminam seus sonhos, apagando da memória o longo e inexpressivo interregno do Ministério. “O tempo contraía-se”.
A viagem é longa e repleta de sensações como são todas as viagem de resgate. O personagem reencontra-se com a natureza - os rios e caminhos continuavam a seguir seus rumos. Eis que chega em Pouso Triste e percebe que a cidade envelhecera, não havia mais a claridade subjetiva iluminando a aparição da moça e não encontrava reminescentes nos fantasmas desdentados que conversavam na praça. Tudo lhe era indiferente.
Vai ao encontro de Duília como o prenúncio da impossibilidade e eis que encontra Dona Dudu, professora de uma escola rural, viúva, vários netos. Senhora muito pálida, de cabelos grisalhos e dentes cariados, com o colo murcho. Atônito, percebe que o melhor do passado estava dentro dele, que não se deve retornar ao lugar das primeiras ilusões.
Mas... O que fazer? José Maria sabia que não tinha mais tempo para criar novas. Desespera-se e foge, deixando a envelhecida Duília, chamando-o no meio da rua.
O funcionário entregou sua vida à repartição como uma tentativa de parar o tempo e se tornar insubstituível, contudo, o decreto de sua aposentadoria violenta o seu eu construído e desmonta o homem que envelheceu sem amadurecer os ideais e projetos. Durante toda a vida funcional, José Maria apresentou-se como o funcionário do Ministério e não soube construir alicerces para poder se apresentar, com o mesmo orgulho, como um funcionário aposentado, não havia criado a identificação do homem José Maria.
A vida é feita de etapas. A aposentadoria deveria ser o prêmio de vidas dignificadas no trabalho, ser a possibilidade de um recomeço maduro e de um novo reencontro com propostas, porém nem sempre estamos preparados para lidar com as mudanças que refletem nosso envelhecimento e, muitas vezes, devido a questões econômicas ou sociais, nem somos agraciados com a possibilidade de usufruir o que efetivamente construímos.
Mas... O que fazer? Não podemos agir como o personagem de Anibal Machado e negar o futuro, devemos construir desde o início de nossa vida adulta a capacidade de criar novos projetos e nos adaptar às novas realidades, amadurecidas e fortalecidas com as vivências.
Quantos aposentados não prestam novos concursos? Não pretendem novas carreiras? Hoje, a aposentadoria não é mais vista como um castigo, e sim como um direito a ser usufruído com dignidade, podendo representar a possibilidade de um novo compromisso originado no centro do nosso ser. O homem aposentado empreende-se em novos desafios e não se deixa identificar como um funcionário nas imediações do passado.
Alimentada nos seios amadurecidos de Duília, aproveito a viagem interior e termino a crônica com um texto sobre a coragem de ser e vir a ser:

“Somos chamados a realizar algo novo, a enfrentar a terra de ninguém, a penetrar na floresta onde não há trilhas feitas pelo homem, e da qual ninguém jamais voltou que possa nos servir de guia. Os existencialistas chamam a isso a angústia do nada. Viver no futuro significa um salto para o desconhecido, e isso exige coragem, uma coragem sem precedentes imediatos e compreendida por poucos.”
A coragem de criar
Rollo May


Helena Sut
Enviado por Helena Sut em 25/01/2005
Código do texto: T2388
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Sobre a autora
Helena Sut
Curitiba - Paraná - Brasil, 47 anos
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Helena Sut

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