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FAZ ESCURO MAS EU CANTO - THIAGO DE MELLO

A entrada da primavera dá primazia às sementes poéticas que constróem os sonhos e são sustentados por uma realidade desenvolvida em estações distintas. A vida... O inverno das dificuldades; a primavera das conquistas, o verão dos usufrutos e o outono do amadurecimento.
É preciso florescer, colorir o corpo e amadurecer o pólen ao vento. Conhecer a vida com as linguagens possíveis e conseguir se fazer entender autoria do enredo que interpreta.
O poeta alemão Hölderlin escreveu que “o homem habita a terra poeticamente”. Os sonhos se traduzem em imagens e sons quando os embalamos e nossas conquistas, com trabalho e dedicação. Precisamos da razão e dos símbolos, da técnica e da magia, do frio e do calor para desenhar raízes fortes e frutos saborosos.
No livro “Faz escuro mas eu canto”, Thiago de Mello espalha sua canção e contagia os homens com o trabalho e o conhecimento. Os versos de cada poema são espelhos possíveis e nos preenchem pela visão individual do mundo que nos cerca. Somos a primeira pessoa verbalizada em cada verso, o menino, o caminho e o homem.
Em “Canção para os fonemas da alegria”, dedicado ao Paulo Freire, o poeta declara seu amor pelas palavras, mostrando o método de alfabetização criado pelo educador:
“porque unindo pedaços de palavras
aos poucos vai unindo argila e orvalho,
tristeza e pão, cambão e beija-flor,
e acaba por unir a própria vida
no seu peito partida e repartida
afinal descobre num clarão”
O homem, florescido com as palavras, cresce com o conhecimento, chama seus companheiros e espalha o pólen do seu aprendizado. O poeta encerra seu canto com a alegria presente nos fonemas:
“canção de amor geral que eu vi crescer
nos olhos do homem que aprendeu a ler.”
No poema “A vida verdadeira”, Thiago de Mello inicia na infância do menino do amazonas, o gosto da água negra transparente, e navega nas dificuldades e na coragem para superá-las, nos casamentos, paternidade e empregos. “Vida que não se guarda nem se esquiva, assustada”. Caminhamos ao embalo de seu canto e aprendemos que o homem é a semelhança do menino “com tudo o que ele tem de primavera, de valente esperança e rebeldia”.
“39 anos de um cidadão brasileiro”, escrito em Santiago do Chile em 31 de março de 1965, é uma certidão de nascimento poético. Os versos dispõem sobre o homem na sociedade, as canoas que cruzaram os primeiros rios, os diplomas e certificados. Um brasileiro, caboclo, reservista, eleitor e desempregado que, ao se olhar no espelho, só consegue encontrar o poeta, pois “a poesia mais que ofício é contingência da minha vida de homem”.
São muitos os poemas que florescem nas tantas leituras. A primavera desnuda a estação das possibilidades.
Em “Madrugada camponesa”, o poeta passeia nas estações em seus versos. O tempo do medo se contrapõe ao tempo de ceifar o trigo; a solidão, ao tempo de amor.
“Não vale mais a canção
feita de medo e arremedo
para enganar solidão.
Agora vale a verdade
Cantada simples e sempre,
Agora vale a alegria
Que se constrói dia-a-dia
Feita de canto e de pão.”
Flores e amores, conquistas e alegrias... São tantos os significados possíveis para a entrada da primavera, tantas as alegorias para os sonhos dos homens trabalhadores que lutam todos os dias por uma vida melhor e um jardim mais florido.
“Madrugada camponesa.
Faz escuro (já nem tanto),
Vale a pena trabalhar.
Faz escuro mas eu canto
Porque a manhã vai chegar.”
Otto Maria Carpeux, na abertura do livro, apresenta Thiago de Mello como um homem aberto aos anseios coletivos do povo brasileiro, como um voz que canta, por mais impenetrável que pareça a escuridão da hora da travessia. “FAZ ESCURO MAIS EU CANTO. Freud comparou o sonho a uma voz de criança que canta no escuro porque sente medo. O Canto no Escuro, de Thiago de Mello, ao contrário, nos inspira coragem. Sua poesia também é relógio: dá a hora do galo que anuncia a aurora.”
Para encerrar a crônica, nada mais apropriado do que o artigo final do Estatuto do Homem, escrito em abril de 1964, poema mais conhecido de Thiago de Mello:
“Artigo final
Fica proibido o uso da palavra liberdade,
A qual será suprimida dos dicionários
E do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
A liberdade será algo vivo e transparente
Como um fogo ou um rio,
E sua morada será sempre
O coração do homem.”
É primavera! Leitor, vamos escrever o canto dos amanhãs possíveis com a fertilidade do solo do conhecimento, da alegria e da coragem. Vamos ceifar um futuro que possa alimentar os sonhos.
Helena Sut
Enviado por Helena Sut em 25/01/2005
Código do texto: T2396
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Sobre a autora
Helena Sut
Curitiba - Paraná - Brasil, 47 anos
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Helena Sut

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