Miguel Torga o poeta do inconformismo diante dos abusos do poder!

"Miguel Torga explora através do léxico, todo o atavismo, que encontra em seu espírito rebelde diante das instituições que dominam o mundo do seu tempo. Do seu nome "Torga", definição de planta brava da montanha, que deita raízes fortes, sem dúvida faz juz! Escreveu o seu caráter nas linhas dos seus versos, contos, crônicas e romances. Escreveu sobre o valor do "Homem", e da sua importância como criador e propagador da vida e da natureza!"

Ana Marly de Oliveira Jacobino

Miguel Torga, pseudónimo de Adolfo Correia da Rocha, (São Martinho de Anta, 12 de Agosto de 1907 — Coimbra, 17 de Janeiro de 1995) foi um dos maiores escritores portugueses do século XX. Foi poeta, contista e memorialista, mas escreveu também romances, peças de teatro e ensaios.Nasceu em uma família humilde de Sabrosa, era filho de Francisco Correia Rocha e Maria da Conceição Barros. Em 1918, foi mandado para o seminário de Lamego, onde viveu um dos anos cruciais da sua vida. Estudou Português, Geografia e História, aprendeu latim e ganhou familiaridade com os textos sagrados. Pouco depois comunicou ao pai que não seria padre.

Veio para o Brasil em 1920, ainda com doze anos, para trabalhar na fazenda do tio, proprietário de uma fazenda de café. Ao fim de quatro anos, o tio apercebe-se da sua inteligência e patrocina-lhe os estudos liceais, em Leopoldina. Distingue-se como um aluno dotado. Em 1925, convicto de que ele viria a ser doutor em Coimbra, o tio propôs-se pagar-lhe os estudos como recompensa dos cinco anos de serviço, o que o levou a regressar a Portugal e concluir os estudos.

A literatura portuguesa divide-se em poesia, prosa, filosofia e teatro. Em todas essas áreas houve artistas que se destacaram pelo gênio e pela cultura portuguesa vibrante e com muitas temáticas. Portugal é muitas vezes lembrado como "um país de poetas".

Emigrou para o Brasil em 1920, ainda com doze anos, para trabalhar na fazenda do tio, proprietário de uma fazenda de café. Ao fim de quatro anos, o tio vè a sua inteligência e patrocina-lhe os estudos até se formar em Medicina, e durante seus estudos publica primeiro livro de poemas, Ansiedade. Em 1929, com vinte e dois anos, deu início à colaboração na revista Presença, folha de arte e crítica, com o poema Altitudes. A revista, fundada em 1927 pelo grupo literário avançado de José Régio, Gaspar Simões e Branquinho da Fonseca era bandeira literária do grupo modernista e bandeira libertária da revolução modernista. Em 1930, rompe com a revista por discordar das suas idéias.

Fábula da fábula (Miguel Torga)

Era uma vez

Uma fábula famosa,

Alimentícia

E moralizadora,

Que, em verso e prosa,

Toda gente

Inteligente,

Prudente

E sabedora

Repetia

Aos filhos,

Aos netos

E aos bisnetos.

À base duns insectos,

De que não vale a pena fixar o nome,

A fábula garantia

Que quem cantava

Morria

De fome.

#E realmente...

Simplesmente,

Enquanto a fábula contava,

Um demônio secreto segredava

Ao ouvido secreto

De cada criatura

Que quem não cantava

Morria de fartura.

Para Miguel Torga, nenhum deus é digno de louvor: na sua condição omnisciente é-lhe muito fácil ser virtuoso, e enquanto ser sobrenatural não se lhe opõe qualquer dificuldade para fazer a natureza - mas o homem, limitado, finito, condicionado, exposto à doença, à miséria, à desgraça e à morte é também capaz de criar, e é sobretudo capaz de se impor à natureza, como os trabalhadores rurais trasmontanos impuseram a sua vontade de semear a terra aos penedos bravios das serras.

Em 1934, aos 27 anos, Adolfo Correia Rocha cria o pseudónimo "Miguel" e "Torga". Miguel, em homenagem a dois grandes vultos da cultura ibérica: Miguel de Cervantes e Miguel de Unamuno. Já Torga é uma planta brava da montanha, que deita raízes fortes sob a aridez da rocha, de flor branca, arroxeada ou cor de vinho, com um caule incrivelmente rectilíneo.

Torga sofria de câncer e não escrevia mais desde o ano de 1994. A sua campa rasa em São Martinho de Anta tem uma torga plantada a seu lado, em honra ao poeta..

Natal (Miguel Torga)

Um anjo imaginado,

Um anjo diabético, atual,

Ergueu a mão e disse: — É noite de Natal,

Paz à imaginação!

E todo o ritual

Que antecede o milagre habitual

Perdeu a exaltação.

Em vez de excelsos hinos de confiança

No mistério divino,

E de mirra, e de incenso e ouro

Derramados

No presépio vazio,

Duas perguntas brancas, regeladas

Como a neve que cai,

E breve como o vento

Que entra por uma fresta, quizilento,

Redemoinha e sai:

A volta da lareira

Quantas almas se aquecem

Fraternalmente?

Quantas desejam que o Menino venha

Ouvir humanamente

O lancinante crepitar da lenha?

Literatura autobiográfica: "Diário" (16 volumes, 1941 1993),

Página oficial de Miguel Torga