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RESUMO DO ARTIGO “INTRODUÇÃO: O QUE É LITERATURA” DE TERRY EAGLETON

                                José Flávio Nogueira Guimarães
                                Mestre em Letras: Estudos Literários pela UFMG

        No decorrer das 22 páginas do seu artigo Eagleton trafega por diversos caminhos, análises, questionamentos até chegar a um provável denominador comum. Nesse simples compêndio tentarei resumir as suas mais importantes idéias.
        Tentou-se definir literatura como escrita imaginativa, escrita não verídica. Todavia, a distinção entre fato e ficção parece ser algo questionável, assim como a oposição entre verdade histórica e verdade artística. Como ilustração para tal fato, o autor cita o uso da palavra “novel” no final do século XVI na Irlanda. Tal palavra era usada tanto para os acontecimentos reais tanto quanto para os fictícios. A distinção que hoje fazemos dessas categorias não eram aplicadas à época. Poder-se-ia dizer, inclusive, que hoje a literatura inclui muito da escrita fatual, no entanto também exclui “uma boa margem de ficção”. Eagleton cita como exemplo as histórias em quadrinhos do Superman e os romances de Mills e Boon, todos, geralmente, não considerados como literatura.
        A seguir o autor apresenta uma primeira tese para tentar responder à sua pergunta-título: Poderia a literatura ser definível pelo fato de empregar a linguagem de forma peculiar? Segundo o crítico russo Roman Jakobson, ela representa uma “violência organizada contra a fala comum”. A literatura afasta-se sistematicamente da fala cotidiana, ordinária, e transforma e intensifica a linguagem comum. Essa era a definição de literário apresentada pelos formalistas russos dentre os quais Roman Jakobson. “Imbuídos de um espírito prático e científico, transferiram a atenção para a realidade material do texto literário em si. À crítica caberia dissociar arte e mistério e preocupar-se com a maneira pela qual os textos literários funcionavam na prática. [...] [A literatura] tinha suas leis específicas, suas estruturas e mecanismos, que deveriam ser estudados em si, e não reduzidos a alguma outra coisa. A obra literária não era um veículo de idéias, nem uma reflexão sobre a realidade social, nem a encarnação de uma verdade transcendental: era um fato material, cujo funcionamento podia ser analisado mais ou menos como se examina uma máquina. Era feita de palavras, não de objetos ou sentimentos, sendo um erro considerá-la como a expressão do pensamento de um autor.”
        “Os formalistas começaram por considerar a obra literária como uma reunião mais ou menos arbitrária de ‘artifícios’, e só mais tarde passaram a ver esses artifícios como elementos relacionados entre si: ‘funções’ dentro de um sistema textual global. [...] E o que todos esses elementos tinham em comum era o seu efeito de ‘estranhamento’ ou de ‘desfamiliarização’. A especificidade da linguagem literária, aquilo que a distinguia de outras formas de discurso, era o fato de ela ‘deformar’ a linguagem comum de várias maneiras. Sob a pressão dos artifícios literários, a linguagem comum era intensificada, condensada, torcida, reduzida, ampliada, invertida. [...] Por ter de lutar com a linguagem de forma mais trabalhosa, mais autoconsciente do que o usual, o mundo que essa linguagem encerra é renovado de forma intensa. [...] O discurso literário torna estranha, aliena a fala comum; ao fazê-lo, porém, paradoxalmente nos leva a vivenciar a experiência de maneira mais íntima, mais intensa.”
        “Os formalistas, portanto, consideravam a linguagem literária como um conjunto de desvios da norma, uma espécie de violência lingüística: a literatura é uma forma ‘especial’ de linguagem, em contraste com a linguagem ‘comum’, que usamos habitualmente. [...] Em outras palavras, para os formalistas, o caráter ‘literário’ advinha das relações diferenciais entre um tipo de discurso e outro, não sendo, portanto, uma característica perene. Eles não queriam definir a ‘literatura’, mas a ‘literaturidade’ – os usos especiais da linguagem -, que não apenas podiam ser encontrados em textos ‘literários’, mas também em muitas outras circunstâncias exteriores a eles.”
        A certa altura Eagleton critica os formalistas e afirma que “pensar na literatura como os formalistas o fazem é, na realidade, considerar toda a literatura como poesia”. Isso porque “os formalistas achavam que a essência do literário era o ‘tornar estranho’”. O autor argumenta, portanto, que um outro problema concernente à ‘estranheza’ “é o de que todos os tipos de escrita podem, se trabalhados com a devida engenhosidade, ser considerados ‘estranhos’”.
        Fugindo do formalismo e aproximando-se do pensamento de Tzvetan Todorov, o autor assegura que “a ‘literatura’ pode ser tanto uma questão daquilo que as pessoas fazem com a escrita, como daquilo que a escrita faz com as pessoas”. Logo à frente, paradoxalmente, ele opõem-se a Todorov: “Poderíamos dizer, portanto, que a literatura é um discurso ‘não-pragmático’; ao contrário dos manuais de biologia e recados deixados para o leiteiro, ela não tem nenhuma finalidade prática imediata, referindo-se apenas a um estado geral de coisas”.
        Finalmente tenta concluir algo ao dizer que “a literatura não pode ser, de fato, definida ‘objetivamente’. A definição de literatura fica dependendo da maneira pela qual alguém resolve ‘ler’, e não da natureza daquilo que é lido. Há certos tipos de escritos – poemas, peças de teatro, romances – que, de forma claramente evidente, pretendem ser ‘não-pragmáticos’ nesse sentido, mas isso não nos garante que serão realmente lidos dessa maneira. [...] O que importa pode não ser a origem do texto, mas o modo pelo qual as pessoas o consideram. Se elas decidirem que se trata de literatura, então, ao que parece, o texto será literatura, a despeito do que o seu autor tenha pensado. [...] Não existe uma ‘essência’ da literatura. Qualquer fragmento de escrita pode ser lido ‘não-pragmaticamente’, se é isso o que significa ler um texto como literatura, assim como qualquer escrito pode ser lido ‘poeticamente’.”
        E, contrariamente a tudo que disse acima argumenta: “’Literatura’ talvez signifique exatamente o oposto: qualquer tipo de escrita que, por alguma razão, seja altamente valorizada. [...] Com essa ressalva, a sugestão de que ‘literatura’ é um tipo de escrita altamente valorizada é esclarecedora. Contudo, ela tem uma conseqüência bastante devastadora. Significa que podemos abandonar, de uma vez por todas, a ilusão de que a categoria ‘literatura’ é ‘objetiva’, no sentido de ser eterna e imutável. Qualquer coisa pode ser literatura, e qualquer coisa que é considerada literatura, inalterável e inquestionavelmente – Shakespeare, por exemplo -, pode deixar de sê-lo. Qualquer idéia de que o estudo da literatura é o estudo de uma entidade estável e bem definida, tal como a entomologia é o estudo dos insetos, pode ser abandonada como uma quimera.” Os juízos de valor seriam variáveis de acordo com esse pensamento.
        Ao comentar sobre o “cânone literário”, construto inquestionável da “literatura nacional”, Eagleton diz que “todas as obras literárias, em outras palavras, são ‘reescritas’, mesmo que inconscientemente, pelas sociedades que as lêem; na verdade, não há releitura de uma obra que não seja também uma ‘reescritura’. Nenhuma obra, e nenhuma avaliação atual dela, pode ser simplesmente estendida a novos grupos de pessoas sem que, nesse processo, sofra modificações, talvez quase imperceptíveis. E essa é uma das razões pelas quais o ato de se classificar algo como literatura é extremamente instável.” Nesse sentido, nenhum conhecimento é isento de valor. A própria pretensão “de que o conhecimento deve ser ‘isento de valores’ [já] é, em si, um juízo de valor”.
        Fechando o seu texto, o autor encerra com uma ênfase ideológica a influenciar o conceito do que é literatura e para isso provar afirma “que as diferenças locais, ‘subjetivas’, de avaliação, funcionam dentro de uma maneira específica, socialmente estruturada, de ver o mundo. Se não é possível ver a literatura como uma categoria ‘objetiva’, descritiva, também não é possível dizer que a literatura é apenas aquilo que, caprichosamente, queremos chamar de literatura. Isso porque não há nada de caprichoso nesses tipos de juízos de valor: eles têm suas raízes em estruturas mais profundas de crenças, tão evidentes e inabaláveis quanto o edifício do Empire State. Portanto, o que descobrimos até agora não é apenas que a literatura não existe da mesma maneira que os insetos, e que os juízos de valor que a constituem são historicamente variáveis, mas que esses juízos têm, eles próprios, uma estreita relação com as ideologias sociais. Eles se referem, em última análise, não apenas ao gosto particular, mas aos pressupostos pelos quais certos grupos sociais exercem e mantêm o poder sobre outros.

REFERÊNCIA:
EAGLETON, Terry. Introdução: O que é literatura. In: EAGLETON, Terry. Teoria da literatura: uma introdução. 5 ed. Trad. Waltencir Dutra. São Paulo. Martins Fontes, 2003. P. 1-22.
José Flávio Nogueira Guimarães
Enviado por José Flávio Nogueira Guimarães em 22/11/2011
Reeditado em 24/11/2011
Código do texto: T3349495
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Sobre o autor
José Flávio Nogueira Guimarães
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil, 47 anos
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